quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

As Aulas de Natação e a Nova Variante Ômicron

 

 Gráfico 01 - Análise comparativa de transmissibilidade e mortalidade da variante Ômicron.




(Escrito por: Renato Coelho)


O ano de 2022 inicia com uma explosão de contágios provocado pela nova variante Ômicron, e as regras de contingenciamento retornam em todo o mundo para tentar mitigar a propagação acelerada da covid-19. O contexto atual da pandemia no Brasil é totalmente diferente dos anos iniciais, pois temos cerca de 70% da população imunizada, (ver gráfico 02) uma nova variante muito mais transmissível que suas antecessoras, um apagão (sabotagem) nos dados e estatísticas oficiais sobre a pandemia e um comportamento diferente da população que voltou às atividades e níveis de mobilidade pré-pandemia. 

 

Gráfico 02 - Comparativo de vacinação entre países (Fonte: Coronavirus Pandemic (COVID-19) - Our World in Data)


O reinício das aulas em Educação Física mais uma vez foi adiado na Universidade Estadual de Goiás (Unidade ESEFFEGO localizada na cidade de Goiânia, Goiás), pois o crescimento exponencial com curva em vertical e com previsão de mais de um milhão de contágios por dia para o mês de janeiro de 2022, (números baseados em modelagem matemática: Universidade de Washington - EUA), foram decisivos para  o adiamento das aulas presenciais em Educação Física e a manutenção das aulas em EaD. Além disso, os índices de ocupações de UTIs pediátricas em Goiânia e no Estado de Goiás registram quase 100% de lotação, o que gera muita preocupação e apreensão em toda a sociedade. (Ver tabela 01 abaixo)

 


Tabela 01 - Sistema de Saúde em Goiás em colapso (Fonte: Secretaria Estadual de Saúde em 20/01/2022).


O discurso de que a variante Ômicron é mais “suave” do que as demais variantes anteriores é um grande engano e uma armadilha, pois na verdade a variante Ômicron é menos letal apenas em relação à variante Delta, que é a variante mais letal do vírus Sars-Cov-2. Mas, a Ômicron continua tão letal quanto o vírus original de Wuhan e também tão letal quanto às variantes Alfa e Beta , o que gera uma situação preocupante e grave principalmente para os não vacinados e também para as crianças brasileiras, cujo processo de vacinação iniciou de forma muito tardia e desorganizada no país. O fato da variante Ômicron ser mais transmissível que as anteriores, está provocando sobrecarga e colapso nos sistemas de saúde em todo o mundo, pois contamina mais pessoas em um curto intervalo de tempo. Para se ter uma ideia da rapidez e aceleração desta nova variante, a título de comparação, a variante Delta demorava cerca de 2 a 3 semanas para duplicar o número total de contaminados, já a variante Ômicron leva apenas de 2 a 3 dias para duplicar o total de contágios numa população. Os sintomas considerados “menos graves” provocados pela variante Ômicron, na verdade se devem, não somente às suas várias mutações genéticas na proteína spike, mas como também ao aumento da imunização da população provocado pela vacinação em massa. Os efeitos da vacinação e o fato da variante Ômicron não ter êxito em infeccionar os pulmões, mas apenas o trato respiratório superior (boca, garganta e nariz) tem sido o grande responsável pela diminuição de óbitos em relação às variantes anteriores. 

O grande problema relacionado à variante Ômicron se deve à sua alta transmissão, que em termos proporcionais pode levar ao colapso das redes hospitalares ao redor do mundo. E essa característica importante relacionada à sua alta transmissibilidade a torna uma variante de grande preocupação, ao contrário do que pensam muitos especialistas do assunto.

Em Goiás, nesta segunda quinzena de janeiro, após a prevalência da variante Ômicron, estima-se que o índice de transmissão (Rt) esteja oscilando entre 2,5 e 3,0, o que significa 100 pessoas contaminadas são capazes de infectar outras 300 pessoas em um único evento.  A velocidade de transmissão da variante Ômicron é assustadora, não fazendo mais sentido classificar eventos em super-espalhadores, pois qualquer evento em que ocorra aglomerações se torna super espalhador em se tratando da nova variante Ômicron, seja em espaços abertos ou fechados.

As mutações virais seguem as leis da Seleção Natural de Charles Darwin, o objetivo para o surgimento de novas variantes é a perpetuação e a manutenção do próprio vírus na natureza, e sempre irá prevalecer a variante mais adaptada após as mutações. As mudanças genéticas seguem efeitos probabilísticos, e entre as infinitas mutações, existem algumas que se tornam mais adaptadas ao meio. Tais modificações e adaptações, porém, são limitadas e dentro das combinações aleatórias dos genes, tais mudanças são guiadas por regras e leis próprias. Por exemplo, o vírus ao sofrer mutações não pode ser tudo o que ele quiser ser ao mesmo tempo. Não surgirá uma variante que seja ao mesmo tempo muito mais letal e muito mais transmissível do que outros vírus existentes. Ou ela será mais letal e menos transmissível ou então menos letal e mais transmissível. A Entropia (S) do sistema deve sempre aumentar, regendo e organizando as novas combinações e organizações moleculares, a fim de levar o sistema à estabilidade  (aumento da desordem). Por isso, uma nova variante que seja ao mesmo tempo muito mais letal e muito mais transmissível pode até surgir, porém, seria altamente instável e com probabilidade remota de prevalecer sobre as demais, sendo então eliminada no processo da seleção natural. O vírus Ebola é o mais letal da natureza, porém, possui baixa transmissibilidade comparada, por exemplo, à atual variante Ômicron do Sars-Cov-2, que é infinitamente menos letal do que aquele. Mas, a Ômicron, por sua vez, é muito mais transmissível do que o vírus do sarampo, que era até então classificado como o vírus mais transmissível da natureza. O vírus do sarampo possui uma transmissibilidade de 1:15 (uma pessoa contaminada transmite para quinze outras pessoas), já a variante Ômicron possui uma transmissibilidade maior, de 1:20 (uma pessoa contaminada transmite para vinte outras pessoas). (Ver gráfico abaixo).



 Gráfico 01 - Análise comparativa de transmissibilidade e mortalidade da variante Ômicron.

A super onda da Ômicron possui um padrão que vem se repetindo por vários países ao redor do mundo, apesar das diferenças demográficas e regionais, observa-se que a sua transmissão é muito rápida, levando em média de 4 a 5 semanas para atingir o seu pico, como tem-se constatado na África do Sul, também em vários países da Europa como no Reino Unido e ainda no continente americano, como é o exemplo do Canadá. Outro fator importante é que o seu decaimento é também tão rápido quanto a sua fase de crescimento, levando o mesmo tempo (4 a 5 semanas) para então iniciar a fase terminal de propagação da super onda. (Ver Gráfico 03 abaixo).

Gráfico 03 - A dinãmica da super onda da variante Ômicron em vários países do mundo.

Pelos dados da Ômicron no Brasil, a super onda provavelmente tenha se iniciado na última semana de dezembro, durante o período das festividades natalinas. Seguindo então o padrão da Ômicron no mundo, teremos o pico (maior número de casos e infecções) na primeira semana de fevereiro com cerca de dois milhões de contágios-dia (2.000.000/dia). Levando em conta que o seu decaimento pode levar o mesmo tempo para atingir o pico, logo apenas nas primeiras semanas de março teremos uma estabilidade com diminuição expressiva dos contágios. (Ver gráfico 04 abaixo). Segundo projeções em modelagens matemáticas da Universidade de Washington, nesta segunda quinzena de janeiro estamos tendo cerca de 1 milhão de contágios/dia, e para a primeira semana de fevereiro, onde ocorrerá o pico da super onda, teremos mais de 2 milhões de contágios/dia, números estes muito diferentes das estatísticas oficiais, que além de subnotificadas, sofreram uma recente sabotagem no sistema (erroneamente denominado de “apagão”).

Gráfico 04 - Contágios no Brasil com excesso de subnotificação de casos.


As aulas de Educação Física e a variante  Ômicron

 Durante o período de existência da super onda da variante Ômicron, as aulas presenciais em escolas, creches e em universidades devem ser suspensas e a sugestão é  o retorno temporário das aulas virtuais pela internet. Em Goiás, por exemplo, no dia 17 de janeiro foram inicializadas as aulas nas escolas da rede privada e no dia 19 de janeiro começaram as aulas nas escolas públicas municipais e estaduais, promovendo a mobilidade de mais de um milhão de crianças e adolescentes em todo o Estado. Tal fato denota uma total irresponsabilidade dos gestores públicos e uma atitude errônea em subestimar as consequências e os danos provocados pela variante Ômicron. O mantra que diz ser a escola local seguro em tempos de pandemia, não possui nenhum respaldo científico, pois escolas, creches e universidades são locais de aglomeração e de contatos por definição. Na atual fase de expansão acelerada da pandemia, tendo o protagonismo da variante Ômicron, estando o Rt (coeficiente de transmissão) em Goiás entre 2,5 – 3,0, jamais deveriam abrir escolas, creches ou universidades neste período e com estes números citados em plena elevação, ainda mais sabendo que a maioria das crianças e adolescentes ainda não foram imunizados pela vacinação.

As aulas de Educação Física também devem ser suspensas neste período específico de descontrole da pandemia, sejam as aulas realizadas em quadras abertas, piscinas, campos ou ginásios. Quando a pandemia está fora de controle, ou seja, quando o Rt > 1 significa que quaisquer que sejam os protocolos de biossegurança adotados, por mais rigorosos que sejam, serão todos ineficazes em locais que gerem aglomerações, como é o caso específicos de escolas ou universidades. Neste contexto, a melhor atitude a ser adotada é a suspensão imediata das aulas presenciais, adotando o modelo de aulas virtuais, a fim de se evitar novos contágios, surtos,  internações hospitalares e óbitos.

Gráfico 05 - Comportamento da transmissibilidade (Rt) durante a pandemia no Brasil.

Existem normas e protocolos importantes a serem utilizados em aulas de natação, como o rodízio de alunos, distanciamento (um aluno por raia), disponibilização de álcool em gel, uso de máscaras, protetores faciais pelos professores, escalonamento de horários por turmas, passaporte vacinal e etc. Porém, a continuidade ou não das aulas, deve obedecer a rígidos critérios epidemiológicos relacionados ao grau de contágios e de óbitos na cidade ou país. Caso contrário, nenhuma destas normas ou protocolos, por mais rígidos que sejam, surtirão o efeito esperado no que tange à proteção de alunos e de professores nas aulas de natação, pois não existe protocolo sanitário com eficácia garantida quando se registra crescimento na curva exponencial de contágios (Rt > 1).


Gráfico 06 - Simulação de Rt em três ondas hipotéticas.

O chamado coeficiente de transmissão (Rt) mede a velocidade de transmissão do vírus, permitindo acompanhar a taxa de evolução e a dinâmica da pandemia ao longo do tempo. Como mostra o gráfico 06 acima, quando a curva sobe (ascendente) significa que a taxa de transmissão está em aceleração (Rt > 1), indicando que os contágios estão aumentando. Quando a curva é descendente, significa que Rt<1, logo os contágios estão diminuindo ao longo do tempo. Quando Rt = 1 , significa que a curva é constante (platô). Por exemplo, se numa dada cidade o Rt = 2,3 (Rt > 1), significa que 10 pessoas transmitem o vírus para outras 23 pessoas, mostrando que a pandemia está fora de controle e crescendo. Se o Rt = 0,5 (Rt<1) demonstra que 10 pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 5 pessoas, assim sendo, a pandemia está sob controle e em diminuição. As aulas de natação só devem ser realizadas quando o Rt <1 e ainda quando os números absolutos de contágios e de óbitos também forem baixos. É importante destacar ainda que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para a abertura de escolas e quaisquer outras atividades não essenciais, o número de testes positivios em RT-PCR da população nunca deve ser superior a 10% (100 testes positivados para cada 1.000 pessoas testadas) 

Portanto, não basta apenas a adoção de critérios de biossegurança nas aulas ou em escolas de natação. O uso de álcool em gel nas mãos, máscaras, passaporte vacinal e protetores faciais de acrílico não são capazes de garantir total segurança de alunos e de professores numa escola ou academia de natação sem a observação adequada das estatísticas atualizadas da pandemia em determinada localidade.  É fundamental ainda observar a dinâmica de evolução do vírus na cidade ou região na qual residem os sujeitos envolvidos nas atividades de ensino e aprendizagem da natação. Quando, por exemplo, o coeficiente de transmissão (Rt) em uma cidade for superior a 1,  (Rt>1) indicando aceleração de contágios numa dada região, as aulas de natação devem ser suspensas, pois não existem protocolos seguros e eficazes para aulas presenciais de natação quando a curva exponencial de contágios é crescente (Rt>1), e o melhor nesta situação é o isolamento social e o cancelamento das atividades não essenciais, como por exemplo as aulas de natação e o fechamento de escolas e creches.  Porém, não é isso o que estamos presenciando em Goiás e no Brasil. Com a flexibilização de todas as atividades econômicas não essenciais e o total descontrole da pandemia em Goiás com o advento da variante Ômicron, estamos assistindo o surgimento de uma gigantesca terceira onda de contágios e com características tão danosas e agressivas quanto a primeira e a segunda onda que assistimos no segundo semestre de 2020 (1º onda) e recentemente em março e abril de 2021 (2º onda), podendo infelizmente produzir maiores danos e vítimas, não com relação ao número de óbitos, graças à imunização da população através da vacinação, mas tendo consequências danosas referentes ao colapso do sistema de saúde e óbitos de pessoas não vacinadas e de crianças.


Observações e análises importantes para o reinício das aulas presenciais em Educação Física 


1) Rt < 1 – O índice de transmissão deverá sempre estar abaixo de um (1), indicando que a pandemia está sob controle na região;

2)   Positividade de testagem < 10% - O percentual de testagem RT-PCR em massa deve sempre estar abaixo de 10% na determinada região ou cidade analisada, indicando baixa transmissão;

3)  Os contágios devem estar em decréscimo durante três (03) semanas consecutivas;

4)  Os leitos de UTI’s e de enfermarias devem sempre estar abaixo de 50% a fim de permitir assistência aos doentes infectados;

5)  Deve-se construir uma logísitica robusta e eficaz de testagem, rastreamento e isolamento de casos, para quebrar novos surtos de transmissão pelo vírus

6)Exigir o passaporte da vacina a todos os sujeitos que participam das atividades e que adentram nos locais de aulas.

Sites consultados

Coronavirus Pandemic (COVID-19) - Our World in Data

www.washington.edu

Casos diários de Covid podem chegar a 1 mi no Brasil, diz universidade (metropoles.com)










quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Trabalhando com a natação na pandemia: entrevistando uma professora de natação

 


(Por Renato Coelho)


A entrevista abaixo foi realizada em setembro de 2020, de forma remota e através de um aplicativo de mensagens e por e-mails, com uma professora de natação e ex-aluna (egressa) do curso de licenciatura em Educação Física da UEG - ESEFFEGO, e que atualmente ministra aulas de natação em uma academia privada da capital goiana. Ela relata as suas experiências e os temores em estar lecionando natação de forma presencial em Goiânia num momento  crítico da primeira onda da pandemia em Goiás e que foi marcado pelo aumento de contágios e de óbitos provocados pelo novo coronavirus. O nome da professora e o local de trabalho não serão revelados a fim de conservar o anonimato e a privacidade da entrevistada.

 

1.    Após a sua formação em licenciatura na Eseffego, quais as demais formações adquiridas neste período?

Tive que fazer a complementação em bacharelado para arrumar um emprego. Depois fiz uma especialização em metodologias da Educação Física e atualmente faço mestrado.

 

2.    Em quais estabelecimentos de ensino você trabalha atualmente?

Academia. Como professora de natação

 

3.    Durante o período em que vigorou o decreto estadual de suspensão das atividades econômicas no primeiro semestre de 2020, você continuou trabalhando na sua área de educação física? Durante esse período você recebeu o salário de forma integral?

Fiquei com o contrato suspenso do mês de março a meados de agosto, sem trabalhar, porém, recebendo auxílio de suspensão de contrato do governo por ter carteira assinada. Porém, muita gente foi demitida! Esse auxilio era de um salário mínimo (inferior ao meu salário integral).

 

4.    Como está sendo realizado o seu trabalho atualmente após as flexibilizações das medidas de isolamento? Seu trabalho é presencial ou remoto?

Voltei a trabalhar presencialmente. Está sendo bastante arriscado, pois na natação não é possível aderir às medidas de segurança.

 

5.    Quais as dificuldades e temores em estar trabalhando na área de educação física em Goiânia num momento em que os índices de contágios e de óbitos estão muito elevados?

O medo é diário. Muito contato com alunos que tem contato com outras pessoas. Vários alunos já se afastaram da academia por estarem com o covid, então provavelmente frequentaram as aulas no inicio do contágio. Isso me deixa muito assustada.

 

6.    É possível dar aulas de educação física com segurança no atual momento da pandemia em Goiânia?

Não! É ilusória e totalmente mercadológica essa ideia de academia como algo essencial. Academias são lugares propensos a altos índices de contágios.

 

7.    Qual será o futuro da educação física na sua opinião no mundo com o vírus Sars-Cov-2 ?

Eu ainda não consigo imaginar, mas sei que passaremos por muitas mudanças (já estamos passando).

 

8.    A pandemia fez aumentar a precarização do seu trabalho em educação física?

Sim! Além do medo de estar atuando nesse atual momento, reduções de carga horária que resultaram em redução salarial, fizeram com que essa precarização aumentasse.

 

9.    Você acha que as aulas nas escolas públicas deveriam retornar ainda neste ano? Seria possível dar aulas de educação física nas escolas no atual contexto do Brasil?

Não! Principalmente em escolas públicas. Não concordo que as aulas voltem esse ano!

 

10.                   Como repensar a educação física para este novo século XXI, que está sendo inaugurado agora pelo novo coronavirus?

Como ainda é uma realidade muito nova, não consigo pensar em possibilidades. Mas sei que precisamos de ajustes para que possamos trabalhar com segurança. Professores de academia tem se arriscado bastante.

 

11.       Como está a sua saúde (física e emocional) neste período de trabalho na pandemia?

Já estava bastante desanimada com a área, e esse período me fez desanimar mais ainda. Não sinto motivação para o meu trabalho e não me sinto apta a exercer o trabalho da forma que venho exercendo 



terça-feira, 23 de novembro de 2021

O Retorno às Aulas Presenciais na ESEFFEGO: desafios e ilusões

 

Foto 01 - Antigo campus da ESEFFEGO no bairro de Vila Nova em Goiânia: uma opção e alternativa frente à pandemia


 

(Escrito por: Renato Coelho)


Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho! (GRUPO KRISIS, 2017)

 

Atualmente, vários países do mundo vêm enfrentando novas ondas de contágios e óbitos pelo vírus Sars-Cov-2, muitos destes países com processo de vacinação bastante avançado, como é o caso dos EUA, Inglaterra, Israel, França, Chile, Uruguai e outros. As vacinas atuais contra a Covid-19 são extremamente importantes e confiáveis, evitam a evolução de casos graves da doença, hospitalizações e de óbitos, porém, não é totalmente efetiva no que tange a evitar os contágios pelo vírus, daí a importância, mesmo após receber as duas doses da vacina, manter os cuidados não farmacológicos como o uso de máscaras e o distanciamento social. A vacinação é importante, mas não é o único instrumento de combate à pandemia, é necessário também a manutenção das medidas de restrições sociais em paralelo ao processo de vacinação, a fim de se evitar o surgimento de novas ondas e consequentemente novas mutações do vírus.

A palavra “onda” vem emprestada da física, da chamada mecânica ondulatória, e se caracteriza pela propagação ou vibração de partículas, fluidos, sinais sonoros ou eletromagnéticos em função do tempo, sendo possível determinar matematicamente a sua magnitude, amplitude e frequência. Um terremoto, por exemplo, pode ser avaliado e medido de acordo com a sua magnitude, ou seja, em função das ondas mecânicas produzidas em consequência do movimento das placas rochosas no interior da Terra. Já na epidemiologia, o termo “onda” se refere a uma explosão abrupta de contágios e/ou de óbitos no contexto das epidemias ou de uma pandemia. Em 2020, o Brasil experimentou a chamada primeira onda da covid-19 entre os meses de julho e agosto, tendo amplitudes máximas em torno de 1.000 óbitos diários dentro da chamada média móvel. A segunda onda se deu recentemente, entre os meses de abril e maio de 2021, tendo picos ou amplitudes com mais de 3.000 óbitos por dia. O surgimento de novas ondas está associado ao aumento da mobilidade social, às flexibilizações das regras de distanciamento social, a não obrigatoriedade do uso de máscaras, à baixa velocidade na vacinação em massa e também ao surgimento de novas mutações mais contagiosas em comparação ao vírus original.




Gráfico 01 – Comparativo entre países de casos de covid-19 por milhão de pessoas (Fonte: www.ourworldindata.org/coronavírus).

No Gráfico 01 acima, podemos observar atualmente o surgimento de novas ondas de covid-19, com o aumento abrupto de contágios em países como Reino Unido, Estados Unidos, França e Alemanha. As investigações apontam que o surgimento de uma nova onda nestes países com alta taxa de vacinação se deve ao avanço da nova variante Delta.  No atual contexto brasileiro, estamos experimentando nestas últimas semanas um decréscimo considerável nas taxas de contágios e óbitos, com queda significativa nas médias móveis de casos (ver Gráfico 02 abaixo).




Gráfico 02 – Casos diários de covid-19 no Brasil. (Fonte: www.ourworldindata.org/coronavírus).


Porém, assim como ocorreu naqueles países citados anteriormente, a entrada da variante Delta em território brasileiro, onde o Rio de Janeiro e o Distrito Federal foram os primeiros epicentros da variante Delta, podem mudar a tendência de queda dos números da covid-19 no país já para os próximos meses. Surgem então três fatores importantes e capazes de ajudar no surgimento de uma terceira nova onda de contágios pela covid-19 no Brasil. O primeiro fator diz respeito ao atraso e a lentidão no processo de vacinação (Programa Nacional de Imunização – PNI), que tem permitido uma maior circulação do vírus entre a população, já que até o momento o Brasil imunizou apenas 60% do total da população (ver gráfico 03 abaixo). O segundo fator está ligado ao surgimento da chamada variante Delta, que é duas vezes mais contagiosa do que as variantes anteriores e possui uma carga viral 1260 vezes maior, o que implica numa velocidade de contágio duas vezes superior (COELHO, 2021). Por fim, o terceiro fator se refere ao aumento da mobilidade humana em resposta às flexibilizações e à volta das aulas presenciais em escolas e universidades brasileiras. A mistura destes três fatores implicará no surgimento da chamada terceira onda, com aumento de contágios, porém, com número de óbitos em menor escala do que anteriormente se assistiu graças à vacinação. Tal fenômeno já está ocorrendo nos EUA e em alguns países da américa do Sul, Europa e Ásia, em virtude da introdução da variante Delta e combinada com estes fatores mencionados. Vale destacar ainda que, mesmo países com vacinação avançada, como exemplo da Alemanha e Holanda, enfrentam o surgimento de novas e fortes ondas de contágios pelo fato de não controlarem essas três importantes variáveis: mobilidade humana (flexibilizações precoces), velocidade na vacinação em massa e a mitigação de contágios pela variante Delta.



Gráfico 03 – Ritmo de imunização entre países (vacinação com duas doses) (Fonte: www.ourworldindata.org/coronavírus).


Tais ingredientes acima, juntamente com as flexibilizações no comércio e o retorno das aulas presencias na maioria das redes públicas de ensino e em universidades (vale destacar que as crianças abaixo de 12 anos no Brasil ainda não estão imunizadas), formam os pré-requisitos básicos para a formação de uma nova e imprevisível terceira onda da covid-19 no Brasil. Vale destacar ainda que a imunização contra a covid-19 requer duas doses completas de vacinas, sendo que, apenas uma única dose, seja da vacina Pfizer, Coronavac ou AstraZeneca, não é suficiente para formar uma completa defesa no organismo humano contra a variante Delta, daí o grande problema da lentidão no programa de vacinação diante de uma iminente terceira onda, e que tornaria urgente a aplicação da segunda dose através do PNI, a fim de se evitar um novo colapso no sistema de saúde e o incremento de óbitos na pandemia.

 

A Variante Delta: descontrole e imprevisibilidade


Nos países anglo-saxônicos, este mundo de horror já é realidade para milhões, no Terceiro Mundo e na Europa do Leste, nem se fala; e o continente do euro mostra-se decidido a superar, rapidamente, esse atraso. As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: as crianças do Terceiro Mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da "iniciativa privada", que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviço. "O modelo para o futuro é o indivíduo como empresário de sua força de trabalho e de sua própria previdência social", escreve a "Comissão para o Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia". E ainda: "a demanda por serviços pessoais simples é tanto maior quanto menos custam, isto é, quanto menos ganham os prestadores de serviço". Num mundo em que ainda existisse auto-estima humana, uma frase deste tipo deveria provocar uma revolta social. Porém, num mundo de animais de trabalho domesticados, ela apenas provoca um resignado balançar de cabeça. (GRUPO KRISIS, 2017).

 

Gráfico 04 – Escala comparativa de propagação e de letalidade da variante Delta em relação a outros vírus. (Fonte: www.cdc.gov/coronavirus).

 Atualmente no Brasil, a variante Delta já é hegemônica no total de casos de contágios, porém, como não existe um programa nacional de testagem em massa, e tão pouco um programa nacional de testagem genômica para identificação genética das variantes em território nacional, logo, não há certezas quanto ao quantitativo de contágios pela nova variante Delta. 

No Gráfico 04 acima, podemos observar que a variante Delta ocupa uma posição de destaque, onde verificamos que ela é mais transmissível do que os vírus do ebola, da varíola e da gripe. Além da alta rapidez de transmissão da variante Delta, o gráfico também comprova que ela é mais mortal do que a gripe e a poliomielite, sendo a sua mortalidade maior do que o vírus original sars-cov-2 de Wuhan (China). Sendo essa mutação mais transmissível, obviamente que a mesma se torna também mais mortal do que as suas antecessoras. Ainda no Gráfico 04 acima, analisando o eixo horizontal (eixo x), temos a taxa de contágios a partir de uma única pessoa infectada, vemos que uma pessoa contaminada com a gripe comum, transmite o vírus para uma (01) outra pessoa. Já o vírus Sars-Cov-2 original de Wuhan, transmite covid-19 para três (03) outras pessoas. No entanto, ao observarmos a projeção da variante Delta no eixo horizontal (eixo x), nota-se que a transmissão de uma pessoa infectada ocorre até entre oito (8) pessoas de contato, ou seja, devido à sua altíssima carga viral, que é aproximadamente 1260 vezes maior, a sua taxa de transmissão passa a ser mais do que o dobro do vírus Sars-Cov-2 original. Tal dinâmica assustadora de contágios deveria colocar todo o país em alerta máximo no quesito prevenção e adoção de medidas restritivas e de mitigação de novos casos, com testagem em massa e rastreio de contatos, no entanto, o que se observa é justamente o contrário, com aumento de flexibilizações e a desobrigação do uso de máscaras em várias cidades.

 


Figura 02 – Comparativo de transmissibilidade da Variante Delta: mais do que o dobro de transmissão.


Com o alto índice de transmissão da variante Delta (cerca de duas vezes maior), observa-se uma dinâmica diferente de contágio do vírus em relação às demais cepas (Alfa, Beta, Gama e Lambda), daí a importância em se revisar conceitos e hábitos construídos ao longo destes meses de pandemia no Brasil e no mundo. A variante Delta pode ser transmitida até mesmo em ambientes abertos quando não respeitadas as regras de distanciamento social. Por isso, as atividades em ambientes abertos ou ao ar livre devem ser revistas quanto ao distanciamento seguro, mesmo com o uso de máscaras. Em ambientes fechados já foi comprovado a transmissão de covid-19 via aerossóis mesmo com o uso de máscaras e com distanciamento. (COELHO, 2021b).

Vale destacar também que vários protocolos adotados inicialmente na pandemia, hoje demonstram não ter nenhuma eficácia contra a transmissão do vírus Sars-Cov-2, como por exemplo, a medição de temperatura em supermercados, limpeza de sapatos, higienização de compras de supermercados, luzes de Ultra Violeta e o próprio álcool em gel, já que a transmissão do vírus que provoca a covid-19 se dá exclusivamente pelas vias respiratórias, ou seja, pelo ar, e não por contatos pelas mãos. Portanto, os únicos protocolos  realmente válidos contra a Covid-19 sãoo uso de máscaras, as vacinas e o distanciamento social.

  

A Educação Física e a Variante Delta


O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage à morte de seu deus, é a continuação lógica e a etapa final de uma longa história. Desde os dias da Reforma, todas as forças basilares da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Principalmente durante os últimos 150 anos, todas as teorias sociais e correntes políticas estavam possuídas, por assim dizer, pela ideia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas combateram até a última gota de sangue, mas, apesar de toda a animosidade, sempre levaram, em conjunto, sacrifícios ao altar do deus-trabalho. "Afastai os ociosos", dizia o Hino Internacional do Trabalho – e "o trabalho liberta" ecoava aterrorizantemente sobre os portões de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra se professaram ainda mais a favor da ditadura eterna do trabalho. Mesmo a Constituição do Estado da Baviera, arquicatólico, ensina aos seus cidadãos partindo do sentido da tradição luterana: "o trabalho é a fonte do bem-estar do povo e está sob proteção especial do Estado". No final do século XX, quase todas as diferenças ideológicas desapareceram. Sobrou o dogma impiedoso segundo o qual o trabalho é a determinação natural do homem. (GRUPO KRISIS, 2017).

 

Sabemos que o ensino da Educação Física não se resume apenas ao saber fazer ou ao simples gesto técnico, mecanizado e repetitivo. O ensino da cultura corporal envolve saberes e metodologias capazes de relacionar o corpo e o movimento a significados e sentidos para muito além da cinética ou da performance, pois nesta relação de ensino-aprendizagem está envolto além de teorias sobre o corpo, sensações, toques, valores sociais, experiências, sentimentos, pensamentos e questões de classe. Daí, com a pandemia e as aulas remotas, o ensino da educação física sofre o mais duro golpe desde o seu surgimento com o chamado Movimento Ginástico Europeu, durante o século XIX na Europa. A mediocridade e a pobreza das aulas on-line dilaceraram o ensino da Educação Física, assim como também as outras disciplinas e saberes, e que foram engessadas, exorcizadas e despidas pelas tecnologias mortas e robotizadas do ciberespaço. Nas aulas remotas não existem os contatos, os movimentos, os sons, os gritos e os descontroles dos corpos, mas apenas o silêncio do computador e a artificial contração do espaço-tempo pelas plataformas digitais. A pandemia obrigou a todos a se adaptarem ao ensino remoto, a fim de evitar novos contágios pelo vírus Sars-Cov-2. Porém, apesar de todas as limitações e neuroses provocadas pelas aulas virtuais, uma volta às aulas presenciais sem planejamento adequado e com os estudos necessários, num momento crítico como o atual, pode provocar danos irreversíveis à sociedade, principalmente para os grupos mais vulneráveis e que ainda não estão imunizados, como é o caso específico das crianças abaixo de 12 anos. Não se deveria estar discutindo hoje o retorno às aulas presenciais, mas sim em como melhorar e incluir alunos e professores no Ensino à Distância em tempos de pandemia, com gratuidade de acesso à internet, disponibilidade a hardwares e softwares à comunidade escolar e universitária, num sentido de provocar uma “humanização” das atuais excludentes aulas on-line. Porém, o que assistimos não é uma coisa e nem outra, apenas uma imposição ao “novo normal”, para garantir o girar da roda do capital, que até o momento já abreviou a vida de mais de 612.000 brasileiros. Atualmente em Goiás assistimos o retorno precoce e sem sentido das aulas presenciais em escolas públicas municipais e estaduais. Também assistimos o mesmo fenômeno ocorrer, no semestre passado, em escolas e universidades privadas, com a imunização naquele período ainda menor que 20% da população, mesmo com a incidência da variante de preocupação Delta em todo território nacional. A pressão para o retorno às pressas para as aulas presenciais nas universidades públicas também é visível e notória, sendo o retorno aconselhável e e seguro apenas em 2022. Os gestores públicos usam a ciência apenas quando lhes é conveniente, fazem da ciência um instrumento para os seus deleites e bel-prazeres e obrigam a abertura das instituições educacionais em desconexo com as recomendações epidemiológicas. Ciência a serviço de quem? Ciência para quem, afinal?

 

 

Foto 02 – Quadras poliesportivas do Centro de Excelência do Esporte – ESEFFEGO UEG


Na Foto 02 acima, vemos as quadras poliesportivas suspensas do Centro de Excelência do Esporte, que se localizam no atual campus ESEFFEGO UEG no centro da cidade de Goiânia. Observamos que apesar das quadras se localizarem no 4º piso das instalações do complexo esportivo, o espaço não possui ventilação natural ou circulação de ar, propiciando tornar este local no futuro, em um ambiente super espalhador de covid-19. Vemos que nos locais descritos em A e C na foto acima, são estruturas de vidro e que auxiliam na iluminação natural do ambiente, porém, as aberturas e frestas entre as estruturas de vidro são pequenas e não permitem uma circulação efetiva do ar vindo de fora, o que dificulta a troca do ar, mantendo o ambiente constantemente abafado e sem troca efetiva de ar com o meio externo. A estrutura B faz parte da arquitetura interna e do design externo do prédio e apesar das aberturas também nestas estruturas metálicas, elas não permitem uma circulação efetiva do ar, impedindo a troca e circulação entre o ar externo e interno. A circulação de ar é uma condição importante e recomendável para ambientes com presença humana no período de pandemia. Apesar do espaço das quadras possuir uma grande área total (três quadras anexas), mesmo assim, possui uma arquitetura que dificulta a circulação natural do ar. Evidencia-se a necessidade futura de mudanças na arquitetura do prédio para a prática de atividades esportivas ou aulas presenciais, após a vacinação total da população, a fim de permitir uma maior troca de ar entre os ambientes internos e externos para maior segurança dos estudantes e usuários. Uma sugestão seria a retirada das estruturas de vidro e das partes metálicas nas paredes, substituindo-as por outras formas arquitetônicas com aberturas maiores e com proteção contra a chuva e o Sol (exemplo: arquitetura aberta  do tipo “Quebra Sol”).


Foto 03 – Visão interna do Centro de Excelência dos Esportes ESEFFEGO UEG – Hall de entrada e escadarias de acesso às salas de aula.


As salas de aula do Centro de Excelência dos Esportes (Fotos 03 e 04), que foram na verdade adaptadas e transformadas em salas de aula no ano de 2018 com a mudança do campus ESEFFEGO UEG, e que outrora eram laboratórios, são espaços em geral pequenos e com baixa circulação de ar, e existem ainda salas de aula até mesmo sem nenhuma janela.



Foto 04 – Interior de uma das salas de aula, com pequena área total, apesar de possuir uma janela de tamanho grande.


Essa arquitetura e disposição de salas, também se tornam prejudiciais diante de uma pandemia descontrolada tal qual se observa em Goiás e com a incidência cada vez maior da variante Delta na cidade de Goiânia. Mais uma vez aqui, há de se propor mudanças arquitetônicas capazes de sanar a falta de circulação de ar nas salas citadas para um futuro retorno seguro às aulas presenciais, quando a pandemia estiver sobre controle e com toda a população vacinada.

  

Foto 05 – Academia instalada no Centro de Excelência dos Esportes ESEFFEGO UEG.


A foto 05 mostra as instalações da academia de ginástica do Centro de Excelência dos Esportes ESEFFEGO UEG num espaço amplo e com muitas janelas grandes. Fato importante é que a academia se localiza em um espaço arejado e com grande parte da sua arquitetura sem paredes, com ampla abertura lateral, o que beneficia e muito a circulação e renovação de ar, ao contrário dos demais espaços citados. Quando toda a população estiver vacinada, este espaço poderá servir como modelo para as demais instalações da ESEFFEGO.

 



Foto 06 – Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira  localizado no centro de Goiânia.

 

O Estádio Olímpico (Foto 06) também faz parte do Centro de Excelência dos Esportes. Esse estádio foi inaugurado em 1941, mas em 2006 ele foi demolido pelo governo do Estado para reforma e modernização, porém, a sua reconstrução somente foi finalizada em 2016. Projetado para ser utilizado como espaço para a prática exclusiva de esportes olímpicos, exceto o futebol. Entretanto, devido às constantes pressões da Federação Goiana de Futebol e dos dirigentes dos times de futebol da capital goiana, junto ao governo estadual, o mesmo foi então adaptado para inclusão de um campo de futebol, o que demandou mudanças em suas dimensões e estruturas arquitetônicas originais para abrigar um campo com medidas oficiais de futebol em seu interior. Ao final das reformas no Estádio, que duraram mais de uma década, com constantes paralisações e atrasos, houve várias falhas constatadas após a sua reinauguração em 2016, como espaçamento mínimo entre cadeiras, corredores apertados para torcedores e apenas metade do estádio possui cobertura para visitantes. Os corredores de acesso aos vestiários são estreitos e sem ventilação, a chamada área técnica, onde ficam os jogadores e comissão técnica no intervalo dos jogos é extremamente pequena, sem ventilação e mal projetada. Neste local foram realizadas neste ano de 2021 vários jogos da Copa América, organizado pela Conmebol, inclusive sediando jogos até mesmo da seleção brasileira. Entretanto, é sabido por todos que houve vários surtos de covid-19, durante a realização dos jogos da Copa América no Brasil, inclusive em Goiânia, onde os números oficiais de pessoas infectadas pelo novo coronavírus neste evento internacional não foram divulgados pela Conmebol. Mas, o Ministério da Saúde divulgou o número total de contágios, chegando a 198 pessoas entre jogadores, membros das delegações, arbitragem, médicos, logística e prestadores de serviços. O que é favorável neste estádio é a sua imensa área aberta ao ar livre, tornando este espaço adaptável atividades mais seguras, com excelente circulação de ar e facilidade para o distanciamento social. Vale lembrar, como fato histórico importante, que o Estádio Olímpico serviu para abrigar várias famílias vítimas do acidente radioativo com a cápsula de Césio-137, ocorrido em agosto de 1987 em Goiânia. A vítimas da radiação ficaram acampadas em dezenas de barracas cedidas pelo exército, no local onde hoje se localiza o novo campo de futebol.

 

 


 Foto 07 – Ginásio Rio Vermelho  localizado no Centro de Excelência do Esporte.


O Ginásio Rio Vermelho (Foto 07) possui uma arquitetura muito antiga e quase toda em concreto. Recentemente foi iniciada a reforma do piso, porém, até o início da pandemia, a obra estava inacabada. Possui um teto alto e independente das paredes, sustentado por colunas metálicas e de concreto, o que permite uma boa troca de ar entre os espaços internos e externos. Porém, os corredores internos de acesso à quadra são estreitos e abafados, formando verdadeiros labirintos entre as salas e as quadras. Tal disposição espacial dos corredores e salas pode tornar este espaço propício à propagação de covid-19.

 

Sugestões e Conclusões


Quem hoje ainda se pergunta pelo conteúdo, sentido ou fim de seu trabalho torna-se louco – ou um fator de perturbação do funcionamento do fim em si da máquina social. O "homo faber" , antigamente orgulhoso de seu trabalho e com seu jeito limitado levando a sério o que fazia, hoje é tão fora de moda quanto a máquina de escrever mecânica. A Roda tem que girar de qualquer jeito, e ponto final. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem e traficantes de drogas. Onde se balbucia continuamente um blablablá sobre motivação e criatividade, disso nada sobrou, a não ser auto-engano. Por isso, contam hoje as habilidades de auto-sugestão, autorepresentação e simulação de competência como as virtudes mais importantes de executivos e trabalhadoras especializadas, estrelas da mídia e contabilistas, professoras e guardas de estacionamento. (GRUPO KRISIS, 2017).

 

 

Este ensaio científico sobre educação física e pandemia visa demonstrar apenas a insanidade, irresponsabilidade e a idiotice em querer forçar uma volta às aulas presencias sem atingir a vacinação plena de toda a população. Não existe nenhum embasamento científico pautado em evidências epidemiológicas que atestem o retorno às aulas no atual contexto, sem que haja ao menos 90% da população imunizada.

As estruturas físicas, os espaços e ambientes existentes podem facilmente serem transformados em locais super espalhadores de Covid-19 entre alunos, professores e funcionários, tal qual expusemos com relação ao campus ESEFFEGO em Goiânia, e que somente ajudará a aumentar as estatísticas de casos e de óbitos em toda a população.

Na iminência de uma terceira onda de Covid-19, com a chegada da denominada variante de preocupação Delta, recomenda-se a paralisação de todas as atividades presencias de aulas em educação física, sejam em desportos coletivos ou individuais. Também sugerimos o retorno às aulas remotas pelas escolas da rede municipal de Goiânia (SME) e também de todas as escolas estaduais de Goiás (SEDUC), com o intuito de evitar novos surtos de contágios pelo vírus Sars-Cov-2 e a sua nova variante de preocupação Delta, até que se tenha no mínimo 90% da população totalmente imunizada e que essa cobertura vacinal também atinja as crianças menores de 12 anos.

Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a variante Delta já é predominante no mundo, representando hoje mais de 80% dos contágios totais registrados no planeta. A fim de se evitar novas mortes e a expansão da pandemia no país, é urgente a retomada de medidas restritivas e a aceleração do processo vacinal. Somente com cerca de 90% da população total vacinada se poderá ter um retorno seguro às aulas presenciais. (COELHO, 2021). Recomenda-se também redobrar os cuidados com crianças e adolescentes, pois este grupo não recebeu ainda nenhuma dose de vacina e são os mais vulneráveis diante da expansão da variante Delta. Cuidados redobrados também com a população idosa, que mesmo estando imunizada, poderá sofrer impactos grandes com a exposição à variante Delta, pois este grupo possui um sistema imunológico mais suscetível aos ataques virais e é menor o tempo de proteção das vacinas sobre este grupo etário.

Uma alternativa para o reinício das aulas presenciais híbridas (presencial + on-line)  e escalonadas (por turmas ou períodos)  na ESEFFEGO em 2022 seria a reforma  e utilização também do antigo espaço do campus da Vila Nova juntamente com o Centro de Excelência do Esporte, o que permitiria ações educativas e aulas com espaços e áreas de maior abrangência, permitindo a aplicação de forma mais eficiente do distanciamento social e também evitando possíveis aglomerações de pessoas dentro da comunidade universitária.


Foto 08 - Área externa do antigo campus da ESEFFEGO no bairro de Vila Nova em Goiânia: uma opção e alternativa frente à pandemia.


Bibliografia

COELHO, R. A Educação Física e a Variante Delta: a vida após as olimpíadas. Disponível em:

< https://mundotrabalhoueg.blogspot.com/2021/08/a-educacao-fisica-e-variante-delta-vida.html > Acesso em: 18/08/2021.

COELHO, R. Os Superspreaders: a educação física em xeque. Disponível em <www.mundotrabalhoueg.blogspot.com/2020/10/os-superspreaders-e-educacao-fisica-em.html>. Acesso em: 18/08/2021.

GRUPO KRISIS. Manifesto Contra o Trabalho. Lisboa: ed. Antigona, 2017.

 

Sites Consultados:

OUR WORD IN DATA (www.ourworldindata.org/coronavirus)

CDC (www.cdc.gov/coronavirus)