terça-feira, 15 de junho de 2021

A Natação e os Superspreaders

 



(Escrito por Renato Coelho)

Atualmente várias regiões do mundo vem enfrentando uma forte terceira onda da pandemia do novo coronavírus, inclusive o Brasil. Em quase todos os estados do Brasil, a ocupação de leitos para UTI’s está novamente quase no limite de 100%, com indícios de colapso iminente do sistema de saúde. A terceira onda de contágios é consequência da falta de políticas públicas eficazes de prevenção e de mitigação dos contágios pelo vírus Sars-Comv-2. As flexibilizações precoces e  o lento processo de vacinação no Brasil servem de estopim para o surgimento desta iminente terceira onda da covid-19.

São vários os fatores envolvidos na mecânica de contágios através do novo coronavirus, que vão desde  a amplitude da mobilidade humana, o distanciamento social, a frequência de aglomerações de pessoas, a utilização ou não de máscaras, a velocidade da vacinação, testagem em massa, a implementação de lockdown, o isolamento social, as questões sócio-econômicas e a qualidade da chamada rede de atenção básica de saúde aos doentes. Todos estes fatores  estão correlacionados ao porcentual de contágios e de óbitos numa determinada região. Essas variáveis influenciam diretamente na velocidade de contágios e na dispersão da pandemia no mundo. Entretanto, pesquisas realizadas pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (https://www.lshtm.ac.uk/) demonstram que cerca de 80% dos contágios da Covid-19 são transmitidos por cerca de apenas 10% dos contaminados. Por trás destes números se escondem  os chamados “superspreaders”, palavra que traduzida para o português significa “superespalhadores”, ou seja, existem certas pessoas e em determinados ambientes que juntos são capazes de transmitirem o vírus numa escala muito superior à média regional ou nacional de uma dada região ou país. O surgimento dos  “superspreaders”  está relacionado à dinâmica de propagação  e de contágio do vírus Sars-Cov-2.

 Um “superspreader” não é uma pessoa, mas sim um conjunto de situações ou eventos sociais, que envolvem muitas pessoas, ambientes específicos e o vírus Sars-Cov-2. A combinação de certos locais, com aglomerações de pessoas e o vírus da covid-19, são os ingredientes necessários e suficientes para o surgimento dos “superspreaders”, ou seja, os ambientes ou eventos super espalhadores do novo coronavirus.



Figura 01 - Transmissão do vírus Sars-Cov-2 em evento super espalhador.

Na história recente da pandemia do novo coronavirus, existem vários registros e confirmações de eventos “superspreaders”. Um dos primeiros casos noticiados e documentados de ambientes superespalhadores ocorreu na cidade de Washington nos EUA, onde 61 membros de um coral se reuniram sem as medidas preventivas contra a covid-19, e um dos integrantes do coral, presente no encontro, estava contaminado pelo novo coronavirus, porém, era assintomático. Após a realização deste evento, 53 pessoas testaram positivas para a covid-19, 3 pessoas foram hospitalizadas e 2 morreram. [1] 

Outro exemplo de evento superespalhador ocorreu em uma igreja em Seul, capital da Coréia do Sul, onde uma mulher, membra da igreja e que apresentava sintomas leves da covid-19, frequentou uma reunião daquela igreja, onde todos os participantes tiraram as máscaras para a realização de uma liturgia eclesiástica, e ao final daquela reunião, segundo dados do próprio governo coreano, 43 fiéis da igreja foram contaminados por apenas essa única pessoa.

Ainda na Coréia do Sul, um homem de 29 anos e contaminado com a covid-19, frequentou cerca de cinco (5) boates em um único final de semana na capital Seul, e após dançar e beber com várias pessoas nas boates por onde passou, provocou um surto de covid-19 contaminando dezenas de pessoas, criando um evento denominado superespalhador. [2]



Figura 02 - O distanciamento social e a diminuição de contágios


Vários outros casos ocorridos também no Brasil podem ser relatados como exemplo de eventos superespalhadores, como os jogadores e a comissão técnica do Flamengo, que se contaminaram em viagem ao Equador durante a realização do torneio de futebol Libertadores da América no segundo semestre de 2020. Outro exemplo de ambiente superespalhador também ocorrido no Brasil, foi a posse do presidente do Supremo Tribunal Federal em setembro de 2020, onde a maioria dos convidados e membros da corte foram contaminados, mesmo seguindo protocolos rígidos de segurança contra a covid-19. Neste caso se destaca a aglomeração de pessoas num ambiente fechado com ar condicionado. A cerimônia durou mais de três (3) horas e as pessoas ficaram confinadas num lugar fechado e sem ventilação natural, e mesmo com distanciamento e o uso de máscaras, houve um grande número de contágios entre os participantes devido ao efeito aerossol do vírus Sars_Cov-2, permitindo o contágio pelo ar e tornando o salão do STF num espaço superespalhador. 

O evento superespalhador mais famoso e que ficou conhecido mundialmente foi a cerimônia na Casa Branca, realizada em setembro de 2020 e que contaminou o presidente e candidato à reeleição dos EUA, Donald Trump. Já neste caso não houve a utilização de máscaras pelos participantes e nem tão pouco foi respeitado o distanciamento social. Mesmo sendo um evento realizado ao ar livre, se transformou assim num superespalhador da covid-19 em virtude das intensas e constantes aglomerações naquele local.

Logo vemos que os chamados “Superspreaders” são eventos sociais capazes de potencializar a transmissão do vírus Sars-Cov-2. Se, por exemplo, numa cidade o índice de transmissão (Ro ou Rt) é alto e igual a 2 (Ro=2), significa que uma pessoa contaminada é capaz de transmitir o vírus para duas (2) outras pessoas. Mas no caso de um superespalhador, ele pode transmitir o vírus para 10, 50 ou 100 pessoas dependendo do contexto e não obedecendo a regra da constante de transmissibilidade Ro.

Qualquer ambiente onde ocorram aglomerações e não se respeitem as regras de distanciamento social e o uso correto de máscaras, pode se transformar em um potencial evento superespalhador. Inclusive ambientes fechados e pouco arejados, mesmo com as prevenções adequadas, podem também se transformar em superespalhadores, como no exemplo da cerimônia de posse no STF em Brasília.

Não existe um ambiente em si mesmo que seja superespalhador, esses ambientes são criados pela dinâmica de transmissão do vírus e também pelo contexto da aglomeração, e que combinados, bastando apenas a presença de um única pessoa positiva para a covid-19, faz então surgir o superespalhador e consequentemente potencializando os contágios.


Figura 03 - A - cadeia de contágios do coronavírus;  B - quebra da cadeia de contágios com o distanciamento social.


As academias de ginástica, colégios e as escolas de natação também podem se transformar em ambientes superespalhadores, desde que os ingredientes citados acima estejam presentes. Estes ambientes são na sua grande maioria locais fechados com ar condicionado, com intensas aglomerações de alunos e funcionários. Ressalta-se ainda a realização, por parte dos praticantes, de uma respiração intensa e ofegante nestes ambientes, facilitando as transmissões virais, levando risco a todos os frequentadores destes espaços. Vale destacar que a transmissão mais importante para a covid-19 se dá essencialmente pelo ar, ou seja, o contágio ocorre através das vias respiratórias, e as transmissões por superfícies ou por contato são quase impossíveis, segundo pesquisas recentes.

Muitos dos protocolos planejados para as academias e escolas (incluímos aqui também as escolas de natação) em sua maioria não são eficazes no cotidiano brasileiro onde constantemente o índice de transmissão é maior do que 1 (Rt>1). Na data de hoje, na postagem deste texto, segundo o Imperial College de Londres, o Rt no Brasil equivale a 1,02.

E mais uma vez, tanto no ambiente escolar quanto nas academias, a educação física está sendo colocada em xeque, não pelo vírus Sars-Cov-2, mas pelo total descaso das autoridades e pelo mercado insaciável do capital, que exclui os trabalhadores e alunos da educação física do direito e acesso universal à vacina, à proteção e à saúde, impondo o desemprego e a fome àqueles que não tem opção em escolher entre a vida ou a morte dentro do contexto da super exploração do trabalho na pandemia.

 

 [1] https://exame.com/ciencia/o-superpoder-de-espalhar-covid-19-por-que-alguns-transmitem-mais-o-virus/

                             [2]  https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/05/13/interna_internacional,1146965/governo-investiga-quem-esteve-em-boate-contra-nova-onda-de-covid-19-n.shtml

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Esportes e a Covid-19: o caos na pandemia

       



Foto 01 - Estádio Olímpico localizado na Unidade UEG ESEFFEGO no centro de Goiânia: estádio onde serão realizados os jogos da Copa América em pleno auge da pandemia em Goiás.


(Escrito por: Renato Coelho)


Sempre os governos de diferentes países e em diversas épocas utilizaram os esportes como instrumento ideológico e de manipulação da população, desde Getúlio Vargas, passando pelos presidentes do regime militar, FHC, Lula, Dilma e chegando até aos dias atuais com o governo de Jair Bolsonaro. E nestes tempos tenebrosos de pandemia não tem sido diferente. As velhas e demagógicas políticas de controle estão sendo constantemente utilizadas por governos, instituições e também pela grande mídia no sentido de forçar as pessoas a acreditarem que mesmo em um contexto de pandemia, com as curvas ascendentes de mortes e de contágios pelo novo coronavirus no Brasil, cinicamente vaticinam que a vida pode simplesmente seguir nos antigos padrões da normalidade social, ignorando a alta transmissibilidade e letalidade do vírus Sars-Cov-2 e suas mutações não menos perigosas. Goiânia acaba de ser escolhida como sede da Copa América 2021 que será realizada ainda neste mês de junho no Brasil. Os jogos ocorrerão no Estádio Olímpico, onde também está localizada a Unidade universitária ESSEFEGO pertencente à UEG. E segundo os dados do Boletim Integrado Covid-19 de 01 de junho de 2021 (www.datasets.saude.go.gov.br)  a taxa de ocupação de UTI´s no Estado de Goiás  está em 89,77% e a taxa de ocupação na cidade de Goiânia registra 75,98% de ocupação. Sendo que em Goiânia apenas cerca de 20% da população recebeu a  primeira dose da vacina contra a Covid-19. E em Goiás morrem cerca de 2.000 pessoas a  cada mês, em Goiânia são em média 100 mortes por dia causadas pela covid-19 sem controle. O que estamos a assistir é uma tentativa obstinada por parte do Estado, da grande mídia e também dos grandes empresários em impor uma normalidade impossível em tempos de descontrole total da pandemia no Brasil. Podemos denominar este atual contexto de a Ditadura do Falso Normal, onde se naturaliza a morte em massa a fim de permitir uma continuidade da vida dentro de uma descontinuidade em tempos de pandemia. Hospitais em pleno colapso de atendimento, com colocação de contêiners de câmara fria nos pátios para acomodação de corpos, multiplicações de mutações virais mais letais, falta de vacinas, escassez de oxigênio medicinal para o atendimento de pacientes com Covid-19 e campeonatos estaduais, nacionais e internacionais de futebol, basquete e outros esportes ocorrendo normalmente em solo brasileiro. Além de aumentarem os contágios entre os atletas e os seus familiares, a continuidade das práticas esportivas profissionais é capaz de provocar ainda o adoecimento ou a morte de centenas de outros trabalhadores envolvidos direta ou indiretamente com o espetáculo esportivo. Além deste grave e real problema sanitário de contágio dentro do ambiente esportivo, tais eventos no contexto brasileiro de aumento de transmissão, tem também um caráter simbólico ao criar nas pessoas uma falsa sensação de normalidade. Ver jogadores em campo e assistir ao nosso time em jogos oficiais, cria em nós uma falsa normalidade capaz de nos fazer baixar a guarda e relaxarmos com os cuidados e precauções, expondo assim, mais pessoas ao vírus, ao se fazer acreditar erroneamente que a vida já voltou ao normal, porque os nossos times do coração voltaram a jogar os campeonatos nacionais ou estaduais. De forma consciente ou inconsciente, essa ação de assistir ao jogo e torcer, mesmo que pela TV, é capaz de provocar um relaxamento da maioria da população, sob  o discurso falacioso do “novo normal”, e de um normal que nunca existiu, mesmo antes da pandemia. Esse bombardeio constante de propaganda da falsa normalidade atinge a todos e colabora com o extermínio de classe promovido pelo Estado brasileiro ao transformar a curva exponencial da pandemia no Brasil na mais alta e longa do mundo, sob um platô com uma média móvel superior a 2.000 mortes diárias. Os números e a matemática provam que a vida não segue nada  normal.



Foto 02 - Volante Enzo Pérez do Boca Juniors joga improvisado como goleiro: vinte jogadores do time argentino testaram positivo para a Covid-19 e desfalcaram o Boca Juniors no jogo contra o Santa Fé da Colômbia pela Copa Libertadores da América 2021.

O esporte a partir do século XX se transforma em espetáculo midiático e em megaevento de entretenimento de bilhões de espectadores em todo o mundo. O esporte mercadoria se transforma em produto de consumo e é ofertado não mais como exercício físico, promoção de bem estar ou prática de lazer, mas é transformado em objeto de contemplação e de fethiche. O sujeito que antes praticava o esporte e o próprio esporte se transformam em objetos reificados. O ativo praticante e desportista do dia a dia  ou aquele torcedor apaixonado pelo seu time e frequentador dos estádios desaparecem no mundo do esporte espetáculo moderno e passam a dar lugar ao consumidor passivo do entretenimento esportes, um mero sujeito inerte que apenas contempla virtualmente o esporte espetacularizado e globalizado, que se transformou apenas em imagem a ser vendida e consumida. Nessa metamorfose para se enquadrar no processo de fetichização capitalista, o esporte não apenas se transforma em mais uma mercadoria, mas também perde seus significados, seus símbolos, regras e tradições. Nesse processo de mercadorização e de aniquilamento dos sentidos dos esportes, ocorre o empobrecimento e a perda dos seus elementos constitutivos e essenciais ligados a estética, a arte, ao popular e à história humana.

Mas o esporte não é hoje uma mercadoria qualquer, mas sim uma mercadoria singular e que movimenta uma cifra de bilhões de dólares no mundo. E além de produzir uma escala astronômica de lucros aos seus patrocinadores, os esportes possuem também um capital político e ideológico incomparáveis. Um exemplo marcante dos esportes como instrumento ideológico foi demonstrado durante o período da chamada Guerra Fria, quando da polarização do mundo entre a antiga União Soviética (URSS) e os EUA, que dividiu o planeta entre países capitalistas  apoiados e liderados pelos EUA e os países do bloco comunista, ligados à antiga União Soviética. Durante este período as olímpiadas se transformaram em palco de disputas hegemônicas entre atletas do mundo capitalista versus atletas do mundo comunista. Nestas disputas, no entanto, o “fair play” nunca existiu, pois eram constantes e comuns os escândalos com dopping envolvendo atletas de ambos os lados e que utilizavam esteroides anabolizantes e outros fármacos para alcançarem o pódio e as cobiçadas medalhas olímpicas, e com isso a hegemonia nos esportes mundiais e que servia como a mais poderosa e eficaz propaganda estatal.

Foto 03 - Filme Rock mostra o contexto da Guerra Fria nos esportes: Rocky Balboa (USA) x Ivan Drago (URSS)

Nos países da América Latina não foi diferente o uso dos esportes por governos e regimes ditatoriais, sempre houve ações estatais que transformaram os esportes em bandeira de propaganda de representantes políticos ou de partidos. Na Argentina de Perón ao Brasil de Vargas, sempre se soube do grande poder de fascínio, de êxtase e de admiração provocados pelos esportes, em especial do futebol, sobre a maior parte da população.

Durante o período em que vigoraram as ditaduras militares na América do Sul, houveram casos emblemáticos e históricos onde o Estado se utilizou do esporte para promoção e propaganda de seus ideais e valores, sob o falso manto do triunfalismo, da eficiência, do mérito e da sobrepujança, que são as características do esporte. E mais ainda, aqueles que conseguiam as qualidades de serem os mais rápidos, mais velozes, que iam mais altos e mais longe estavam então à serviço da propaganda do Estado.

A ditadura militar do presidente Videla na Argentina utilizou a Copa do Mundo de 1978 como propaganda do regime ditatorial para o mundo, tentando esconder as mazelas sociais do país, a pobreza e a violência estatal contra a os opositores da ditadura. A Argentina que era sede da Copa do Mundo FIFA de Futebol em 1978 aumenta a violência e a repressão aos opositores no país durante o período da Copa. Enquanto a bola rolava nos gramados argentinos, milhares de pessoas passavam fome nos subúrbios das grandes cidades devido à miséria no país ou eram presas, torturadas e mortas pela polícia argentina.  Mas a propaganda de Videla tentava passar ao mundo, a visão de uma outra Argentina, bem diferente daquela que se via nas ruas de Buenos Aires ou nos porões da polícia de todo o país. A propaganda estatal era a de uma Argentina do “país do futebol” e da seleção de Passarela campeã do mundo em 1978. Mas, para se chegar à final da copa e ao título, o governo argentino promoveu várias intervenções junto à Fifa e também na escancarada manipulação de jogos que beneficiaram o time anfitrião. Um jogo bastante emblemático foi entre Argentina e Peru, onde a seleção Argentina necessitava vencer a equipe adversária peruana com um placar de 4 gols de diferença para avançar à próxima fase, e ainda tirar a seleção do Brasil daquela Copa. Com visita do general Videla ao vestiário da seleção peruana antes e após o jogo contra a Argentina, o placar final de 6 X 0 a favor da Argentina, provocou a desclassificação do Brasil, e  fez a seleção argentina avançar à final e disputar o título contra a Holanda, sagrando-se campeã do mundo.

Foto 04 - Argentina campeã mundial na Copa do Mundo de 1978


No Chile, da mesma forma o ditador Augusto Pinochet, passa a promover intervenções e apoiar o Colo Colo, o time mais famoso e popular da época e que formava a base da seleção chilena. Com o objetivo também de tentar desviar a atenção da população chilena e do mundo das barbáries, atrocidades e genocídios promovidos pela ditadura chilena aos seus opositores, o governo do ditador Augusto Pinochet se utiliza do futebol como instrumento de controle e para mascarar a realidade. O Estádio Nacional do Chile em Santiago se tornou na época em um dos maiores símbolos da cruel ditadura chilena. Este famoso e importante estádio de futebol serviu de local de prisão e tortura para milhares de simpatizantes e apoiadores do governo deposto de Salvador Allende. Milhares de chilenos foram assassinados pela ditadura de Pinochet  dentro do Estádio Nacional do Chile. Um jogo que não aconteceu, mas que entrou para a história do futebol foi nas eliminatórias para a copa do mundo de 1974 na Alemanha, onde a seleção chilena deveria enfrentar a seleção da antiga União Soviética em Santiago, mas o time russo se recusou a entrar no campo do Estádio Nacional  em protesto contra a ditadura de Pinochet. Então a seleção do Chile vence o jogo por W.O e se classifica, com o estádio lotado com mais de 20 mil torcedores chilenos que não assistiram a jogo nenhum.


Foto 05 - Estádio Nacional do Chile 


No Brasil podemos citar também vários momentos sobre a utilização dos eventos esportivos como instrumento ideológico e de manipulação, que vão desde os governos de Getúlio Vargas, passando pelos militares pós 1964 e indo até os governos atuais.

Um dos episódios mais emblemáticos e marcantes da história do futebol brasileiro, e sobre a  ideologização do maior esporte nacional, ocorreu em 1970 na disputa da Copa do Mundo do México, onde a seleção comandada por Pelé & Cia, considerada a maior seleção de futebol de todos os tempos, se transformou na maior e mais poderosa bandeira de propaganda política da ditadura militar brasileira. Enquanto milhares de brasileiros, que se opunham à ditadura, eram torturados e mortos nos porões das delegacias policiais, o governo exaltava e patrocinava a chamada seleção canarinho que se consagrou tricampeã no México em 1970. A propaganda estatal sobre a seleção de Pelé não somente tentava passar uma boa imagem do Brasil no exterior, assim como também conseguia desviar o foco da população brasileira das questões importantes e ligadas à fome, à miséria , às injustiças sociais e sobretudo com relação à violência e repressão institucionalizada do Estado contra os próprios brasileiros. O futebol ajudava a vender a propaganda do “milagre brasileiro” referente ao crescimento artificial da economia e também promovia a falsa imagem criada pelos militares do regime caracterizado pelo slogan “Brasil Potência” ou “Brasil: o país do futuro”.

Foto  06 - General Emílio G. Médici recepciona seleção tricampeã do mundo em 1970.


Nos governos do PT, de Lula e Dilma, (2002-2016) mais uma vez se gastou muita energia e volumosas quantias em dinheiro para transformar o país na sede dos dois  maiores megaeventos  esportivos do planeta, a Copa do Mundo Fifa 2014 e Olimpíadas Rio 2016. A grande êxtase e o entusiasmo em sediar os megaeventos mais importantes do esporte moderno contribuíram também para desviar o foco e a atenção da população brasileira da sua realidade, camuflando os problemas sociais e servindo de capital politico para o governo. Porém, os gastos astronômicos com a construção das chamadas Arenas de futebol com padrão Fifa, que ultrapassaram os 30 bilhões de reais (somente o estádio Mané Garrincha em Brasília custou cerca de 1,5 bilhão de reais e com provas de superfaturamento). Os gastos com as  Olímpiadas do Rio em 2016 ultrapassaram os gastos com a copa do mundo de 2014, alcançando a cifra de 40 bilhões de reais. Os altos gastos com os megaeventos, sob o falso discurso de “Legado Olímpico”, e em contrapartida  a falta de investimentos em infra-estrutura ligadas à saúde, educação, saneamento e geração de empregos, e entre outros fatores importantes, provocaram protestos em todo o país, onde a população exigia com bloqueios de ruas e rodovias maiores investimentos em saúde e educação e ainda a não realização destes mega eventos esportivos. As consequências foram catastróficas com o endividamento público, a inexistência de nenhum legado da copa ou das olimpíadas e ainda o fracasso político da realização dos mega eventos ajudaram a derrubar a popularidade do governo do partido dos trabalhadores (PT), e dentre outros fatores também importantes, a crise gerada potencializou o processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef (PT) em 2016.

Foto 07 - Alunos e professores da UEG cercam o ônibus da seleção brasileira de futebol em frente ao Mercury Hotel no Setor Oeste em Goiânia durante amistosos de preparação para a Copa das Confederações no ano de 2013. (Movimento Mobiliza UEG).


Hoje, durante a pandemia do novo coronavirus e o governo de Jair Bolsonaro, também podemos observar a velha estratégia de se utilizar o esporte como propaganda na criação de uma falsa normalidade, com as mesmas estratégias e mecanismos que adotados por governos anteriores, desde Vargas, passando pelos governos da ditadura militar pós 1964 e pelos governos do PT a partir da década de 2000.

A partir de agosto de 2020, ainda quando se observava grande aumento nas curvas de contágios e de mortes pelo novo coronavirus em todo o país, houve o reinício do campeonato brasileiro de futebol e também dos campeonatos estaduais. Mesmo sem público nos estádios, foram criados vários protocolos sanitários para evitar o contágio por atletas e pelas comissões técnicas. Mas o que assistimos foram vários surtos da covid-19 entre times de todas as regiões do Brasil, inclusive do Goiás E.C e também o Atlético Goianiense, ambos da capital goiana. E no dia 22 de setembro de 2020 o time com a maior torcida do Brasil, o Clube de Regatas do Flamengo, obteve 27 pessoas contaminadas com a covid-19, entre atletas, comissão técnica e cartolas, todos contaminados em viagem à cidade de Guayaquil no Equador pela disputa da copa Libertadores da América. O time que mais pressionou as autoridades para o reinício dos jogos durante a pandemia, teve praticamente quase todo o time e o próprio técnico contaminados pelo vírus Sars-Cov-2, provando assim que não existe protocolo seguro quando a transmissão do vírus é acelerada e ascendente (Rt>1).

Como se não bastasse, existe hoje no Brasil uma forte pressão de clubes sobre a CBF no intuito de liberar a participação de torcedores nos estádios durante a pandemia. Esse movimento também é encabeçado pelo time do Flamengo, que exige a abertura dos portões e das bilheterias aos torcedores. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, na época de olho nas eleições municipais em 2020, cedeu à pressão e aprovou a reabertura do Maracanã aos torcedores. Mas com a revolta de outros dirigentes de clubes importantes, como Botafogo e Fluminense,que não concordam com a reabertura apenas do Maracanã, a prefeitura carioca e o Flamengo voltaram atrás na tentativa de abrir os portões para os torcedores em plena pandemia.

Foto 08 - Flamengo Campeão Brasileiro em pleno crescimento da segunda onda de Covid-19 no Brasil.


O que está de fato por detrás da volta do futebol e também das torcidas  nos estádios em pleno aumento de casos e de contágios na pandemia? Hoje o país contabiliza mais de 430 mil mortos pela covid-19 e várias cidades, como Goiânia, experimentam atualmente um aumento de casos e de mortes na pandemia no início de uma possível terceira onda. Essa chamada política de extermínio de classe no Brasil, representa a tentativa desesperada e pragmática dos governos do país (federal, estaduais e municipais) em criar uma falsa normalidade (alguns denominam de “novo normal”), onde o esporte e principalmente o futebol pode ser capaz de criar no imaginário das pessoas a falsa sensação de que a vida voltou a ser como antes, uma ilusória percepção de que podemos sair de casa e trabalhar como se a pandemia já estivesse terminado.  Mas, ao contrário, a pandemia está em sua fase mais letal e veloz, ceifando milhares de vidas a cada instante. Há uma estimativa do próprio Ministério da Saúde que prevê aumento de mortes diárias no Brasil para os meses de junho e julho de 2021 (pico da terceira onda), e os campeonatos estaduais, Libertadores e o Brasileirão continuam com os seus jogos ainda em andamento. Agora acrescentamos aqui a Copa América a iniciar ainda em Junho deste ano. O governador de Goiás exigiu que as confederações de futebol utilizem todos os protocolos de prevenção contra a covid-19, e fala-se na construção de "Bolha" anti-covid-19 para jogadores e comissão técnica. Entretanto, sabemos que não existe protocolo seguro quando a pandemia está fora de controle (Rt>1), como é o caso de Goiânia, nesta situação o protocolo seguro é o isolamento social e lockdown. Vimos também que as chamadas "bolhas" de isolamento podem ser furadas, como ocorreu em 2020 na NBA nos EUA, ou mais recentemente em Saquarema, cidade do litoral fluminense, onde se localiza o Centro de Treinamento da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), em que o próprio o técnico da seleção brasileira de voleibol contraiu o vírus e precisou ser intubado.

Vê-se assim uma tentativa desesperada de  recuperar as perdas da economia, em um país onde o governo se utiliza de um discurso negacionista, se isenta na criação de políticas públicas de mitigação dos contágios, faz então multiplicar as tentativas e as propagandas de um falso normal, onde os esportes servem de instrumento de mascaramento do verdadeiro extermínio de classe no Brasil durante a pandemia. As pessoas são induzidas e convidadas a consumir e se divertir mesmo com o vírus letal e sem controle nas ruas. E o esporte é mais uma vez este mecanismo importante de criação da normalidade impossível, tal qual ou muito pior, do que se assistimos durante os períodos da chamada Guerra Fria, nas ditaduras da América Latina ou ainda com os já citados megaeventos dos governos do PT no Brasil.

A grande verdade, todos já sabem, para se controlar uma pandemia em um país pobre como o Brasil requer grandes investimentos que garantam a manutenção financeira das famílias de todos os trabalhadores, dos desempregados e dos mais pobres, também a criação de políticas públicas coordenadas na área da saúde, capazes de promover a testagem em massa, o rastreamento em massa, o isolamento em massa e o tratamento de todos os contaminados do país, sejam os casos mais graves ou assintomáticos. Ainda um programa de vacinação em massa que seja eficiente e rápido a fim de frear as mortes pela Covid-19.  Porém, nenhuma destas ações se praticam no Brasil, daí o caminho mais fácil em colocar o trabalhador dentro dos estádios ou em frente da TV para assistir o seu time em plena pandemia. O atalho está sendo feito em utilizar os esportes como anestésico para uma população em pânico e à beira de uma revolta por causa dos prejuízos e do aumento da miséria provocado pela pandemia. Essa é a velha estratégia dos governos e do Estado para se criar o falso normal, porém, a fome não é falsa e não se pode esconder os cadáveres de milhares de mortos. E o culpado, obviamente, não é o vírus.

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Natação e Pandemia: entrevista com uma professora de natação em Goiânia.

 



(Por Renato Coelho)


A entrevista abaixo foi realizada em setembro de 2020, de forma remota e através de um aplicativo de mensagens e por e-mails, com uma professora de natação e ex-aluna (egressa) do curso de licenciatura em Educação Física da UEG - ESEFFEGO, e que atualmente ministra aulas de natação em uma academia privada da capital goiana. Ela relata as suas experiências e os temores em estar lecionando natação de forma presencial em Goiânia num momento  crítico da primeira onda da pandemia e marcada pelo aumento de contágios e de óbitos na cidade provocados pelo novo coronavirus. O nome da professora e o local de trabalho não serão revelados a fim de conservar o anonimato e a privacidade da entrevistada.

 

1.    Após a sua formação em licenciatura na Eseffego, quais as demais formações adquiridas neste período?

Tive que fazer a complementação em bacharelado para arrumar um emprego. Depois fiz uma especialização em metodologias da Educação Física e atualmente faço mestrado.

 

2.    Em quais estabelecimentos de ensino você trabalha atualmente?

Academia. Como professora de natação

 

3.    Durante o período em que vigorou o decreto estadual de suspensão das atividades econômicas no primeiro semestre de 2020, você continuou trabalhando na sua área de educação física? Durante esse período você recebeu o salário de forma integral?

Fiquei com o contrato suspenso do mês de março a meados de agosto, sem trabalhar, porém, recebendo auxílio de suspensão de contrato do governo por ter carteira assinada. Porém, muita gente foi demitida! Esse auxilio era de um salário mínimo (inferior ao meu salário integral).

 

4.    Como está sendo realizado o seu trabalho atualmente após as flexibilizações das medidas de isolamento? Seu trabalho é presencial ou remoto?

Voltei a trabalhar presencialmente. Está sendo bastante arriscado, pois na natação não é possível aderir às medidas de segurança.

 

5.    Quais as dificuldades e temores em estar trabalhando na área de educação física em Goiânia num momento em que os índices de contágios e de óbitos estão muito elevados?

O medo é diário. Muito contato com alunos que tem contato com outras pessoas. Vários alunos já se afastaram da academia por estarem com o covid, então provavelmente frequentaram as aulas no inicio do contágio. Isso me deixa muito assustada.

 

6.    É possível dar aulas de educação física com segurança no atual momento da pandemia em Goiânia?

Não! É ilusória e totalmente mercadológica essa ideia de academia como algo essencial. Academias são lugares propensos a altos índices de contágios.

 

7.    Qual será o futuro da educação física na sua opinião no mundo com o vírus Sars-Cov-2 ?

Eu ainda não consigo imaginar, mas sei que passaremos por muitas mudanças (já estamos passando).

 

8.    A pandemia fez aumentar a precarização do seu trabalho em educação física?

Sim! Além do medo de estar atuando nesse atual momento, reduções de carga horária que resultaram em redução salarial, fizeram com que essa precarização aumentasse.

 

9.    Você acha que as aulas nas escolas públicas deveriam retornar ainda neste ano? Seria possível dar aulas de educação física nas escolas no atual contexto do Brasil?

Não! Principalmente em escolas públicas. Não concordo que as aulas voltem esse ano!

 

10.                   Como repensar a educação física para este novo século XXI, que está sendo inaugurado agora pelo novo coronavirus?

Como ainda é uma realidade muito nova, não consigo pensar em possibilidades. Mas sei que precisamos de ajustes para que possamos trabalhar com segurança. Professores de academia tem se arriscado bastante.

 

11.       Como está a sua saúde (física e emocional) neste período de trabalho na pandemia?

Já estava bastante desanimada com a área, e esse período me fez desanimar mais ainda. Não sinto motivação para o meu trabalho e não me sinto apta a exercer o trabalho da forma que venho exercendo 



terça-feira, 18 de maio de 2021

Aulas de Natação em Tempos de Pandemia do Novo Coronavírus

  


Foto 01 - Atletas olímpicos brasileiros do COB treinam em Portugal para as olimpíadas de Tóquio em virtude da pandemia.


(Escrito por: Renato Coelho)

Quando se devem iniciar as aulas ou treinamentos de natação para grupos de alunos iniciantes ou de nadadores de alto rendimento durante a pandemia do novo coronavírus? Uma turma de natação pode criar um ambiente favorável  de transmissão do novo coronavírus (“super-spreader”)? Medição de temperatura na entrada, álcool em gel nas mãos, tapetes sanitizadores, máscaras, protetores faciais em acrílico, ambientes abertos e todos os demais protocolos de biossegurança criados são realmente seguros e eficazes? As repostas a essas perguntas estarão sempre relacionadas à dinâmica de crescimento da pandemia, ou seja, de acordo com a mensuração e controle das taxas de contágios do novo coronavírus numa dada cidade ou região. Quando os índices de contágios pelo novo coronavírus estão em fase ascendente (crescente), significa que a pandemia está fora de controle e portanto não deve haver aulas com grupos ou turmas de natação, seja em ambientes abertos ou fechados. Não importa o quanto sejam rígidos os protocolos de biossegurança ou as normas de proteção, os participantes das aulas sempre estarão sobre risco iminente de contágio quando a pandemia estiver fora de controle, ou seja, na sua fase ascendente.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (https://www.who.int/eportuguese/publications/pt/), existem seis critérios em que países, estados e municípios devem observar antes de flexibilizarem as regras de isolamento social e assim estabelecer cronogramas para a abertura de atividades tais  como: comércio, indústria e instituições educacionais, incluso aqui também as aulas em escolas de natação. São critérios científicos e adotados por diversos países, que diferentemente do Brasil, conseguiram controlar a pandemia do novo coronavírus no primeiro semestre de 2020. Somente estes critérios são capazes de definir com exatidão e segurança qual o momento exato para se permitir a abertura e flexibilização para as diversas atividades humanas na área da economia, lazer, entretenimento, esporte e educação. Sabemos que atualmente uma voraz e rápida terceira onda de contágios avança sobre países de diversas regiões do planeta, que não tomaram as medidas corretas no seu devido tempo, e os índices de contágios e de óbitos voltaram a subir de forma drástica e descontrolada nestas mesmas regiões, provando que o vírus é mais perigoso do que se imaginava.

Vamos então aos critérios da OMS que podem nortear a abertura de escolas e  também de turmas de natação:

primeiro critério, segundo a OMS, diz que a cidade ou região deve possuir um sistema de saúde capaz de identificar, testar, isolar, rastrear todos os contatos e tratar as pessoas infectadas. A testagem em massa é fundamental para o efetivo controle da pandemia. Faz-se a testagem de toda a população, em seguida isolam os positivados, depois faz-se o rastreamento de todos as pessoas que tiveram contatos recentes com essas mesmas pessoas contaminadas. O segundo critério é a garantia de que os locais de trabalho e os demais ambientes  frequentados por todas as pessoas sejam locais seguros  contra os contágios, ou seja, arejados, sem aglomerações e com disponibilidade de equipamentos de segurança individual (EPI). O terceiro critério diz respeito a adoção de barreiras sanitárias para atender os casos de pessoas já contaminadas e cuja origem seja de fora da cidade ou do país (casos importados), seja em aeroportos, rodovias, portos ou entradas das cidades. O quarto critério é o controle de eventuais surtos em locais estratégicos como hospitais e casas de repouso, para se evitar o aumento na taxa de crescimento da pandemia. O quinto critério é a adoção de medidas preventivas para a conscientização da população com relação à pandemia e suas formas de contágio. O sexto e último critério sugere que a reabertura e flexibilização das atividades econômicas, sociais e culturais  devem ocorrer somente quando as taxas de contágios estiverem em queda, ou seja, somente quando a pandemia estiver sob controle.

Uma regra importante e que não foi listada pela OMS é a adoção de políticas econômicas robustas de fomento para as empresas e para todos os trabalhadores de atividades não essenciais que foram obrigados a participar do isolamento social.

Assim sendo, vemos que em Goiás e em Goiânia, os governos não adotaram e continuam não adotando de forma integrada nenhuma dessas  seis medidas de prevenção e de controle da pandemia. O que presenciamos são flexibilizações precoces e aligeiradas que são as grandes responsáveis pelo número exagerado de mortes, onde os professores de Educação Física e todos os demais trabalhadores em geral acabam por arriscarem as suas próprias vidas para a manutenção diária de suas necessidades materiais e financeiras, simplesmente porque não existe nenhuma ação coordenada para a promoção do controle da pandemia por parte dos governos (Municipais, Estaduais e Federal). 

O crescimento e a velocidade de epidemias obedecem às chamadas curvas exponenciais, onde a velocidade do surgimento de novos casos estará sempre relacionada ao número de casos pré-existentes, crescendo vertiginosamente numa progressão geométrica, podendo dobrar em semanas ou dias a quantidade total de novos casos e de óbitos a depender de sua dinâmica. A forma e a trajetória desta curva se relaciona a vários fatores, como o nível de isolamento populacional, o uso de protocolos de saúde, como por exemplo, o uso obrigatório de máscaras em locais públicos, a existência ou não de vacinas, da quantidade de pessoas imunes e também às características do próprio vírus.



Figura 01 - Curva exponencial de uma pandemia com 3 ondas

O chamado coeficiente de transmissão (Rt) mede a velocidade de transmissão do vírus, ou seja, ele é capaz de nos informar se a pandemia em determinada região ou país está em processo de aceleração ou de desaceleração. A Grosso modo, o coeficiente de transmissão Rt da pandemia mede a inclinação da curva exponencial, ou seja, se a curva é crescente, significa que há aumento na taxa de transmissão, então Rt  > 1, e consequentemente haverá aumento de casos de novos contágios (ver Figura 01 acima). Caso a curva seja decrescente Rt < 1, significa que a pandemia está em desaceleração, logo haverá diminuição na taxa de novos contágios. Portanto, sendo Rt > 1 a pandemia está em estágio de crescimento acelerado, e sendo Rt < 1, significa que a pandemia está em processo de desaceleração. Por exemplo, o Brasil hoje, no atual estágio da pandemia apresenta hoje Rt = 1,21 e significa que cada grupo de 100 pessoas é capaz de contaminar outras 121 pessoas (aumento da transmissão). Em outubro de 2020, o valor Rt no Brasil chegou ao valor de 0,68 e significava que um grupo de 100 pessoas era capaz de contaminar outras 68 pessoas (transmissão em desaceleração). Então, seguindo as normas e observações das taxas de crescimento da pandemia, os períodos recomendados para funcionamento de aulas de natação devem seguir não somente os protocolos de biossegurança recomendados (máscaras, álcool em gel, protetor facial, distanciamento social), mas também a observância da taxa de crescimento da pandemia (Rt) e sem o acompanhamento diário de Rt, a utilização de equipamentos de biossegurança se torna ineficaz. Quando Rt > 1, as aulas devem ser automaticamente suspensas (ver gráfico 02 abaixo).


Figura 02 - Taxa de transmissão e o período recomendado para aulas de natação 

Na Figura 02 acima, no período de 0 até A, vemos que a curva é crescente e o valor de Rt>1, logo não se recomenda a prática de aulas em escolas de natação ou em academias. De A até B a curva cresce e continua com Rt>1. Já de B até C a curva apresenta uma acentuada desaceleração Rt<1, porém o número de novos  contágios apresenta uma média muito alta (acima de M), e por isso também não se recomenda a prática de aulas coletivas de natação, seja em escolas ou academias. Na trajetória de C a D na curva observarmos uma desaceleração dos contágios Rt<1 e uma média inferior a M, ou seja, uma média baixa de contágios, tornando segura a abertura de escolas e academias de natação, desde que utilize todos os protocolos de biossegurança (máscara, álcool gel, etc.) e o distanciamento social. Além da observação  contínua do chamado índice de transmissão  (Rt), é  fundamental também verificar  diariamente o percentual de pessoas contaminadas nas testagens em massa  (RT-PCR). Quando os números apontarem valores superiores a 10% de positivados em testes de RT-PCR, significava que a pandemia está sem controle e consequentemente as aulas de natação e todas as demais atividades não essenciais nesta cidade ou região devem ser suspensas.

Quando se promove o isolamento social é justamente para tentar frear a curva exponencial e achatá-la, ou seja, de permitir que o sistema de saúde local tenha condições de atender à grande demanda exigida pela pandemia, sem permitir com que o sistema de saúde entre em colapso. Entretanto, o que assistimos no Brasil, durante o ano de 2020 e também agora em 2021, foi que nenhum governo municipal, estadual e muito menos o governo federal conseguiu achatar a curva e evitar o colapso do sistema de saúde nas diferentes regiões do país. As curvas atingiram o pico abruptamente e de forma avassaladora nas regiões Norte, Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste do Brasil sem exceção, e hoje enfrentamos a iminência de uma terceira onda de contágios.

Nunca houve no Brasil quarentena verdadeira, as constantes e apressadas flexibilizações do comércio, a forte pressão do governo Federal para o fim do isolamento social adotado por governadores e ainda a falta de remuneração salarial por parte do Estado para as pessoas realmente se manterem em casa durante a pandemia, fizeram fracassar qualquer tipo de planejamento ou estratégia de isolamento social no país. Não é possível para as famílias de trabalhadores  se manterem afastadas do trabalho e em casa sem uma remuneração salarial por parte do Estado. O chamado auxílio emergencial, além de ter sido tardio, com um valor inicial  e irrisório de apenas 600 reais, que hoje foi reduzido para um quarto (1/4) daquele valor (ou seja: míseros 150 reais), tornou inviável qualquer forma de quarentena ou de isolamento social eficaz para a  maioria dos trabalhadores e de desempregados do Brasil. Era dever do Estado financiar e garantir  a quarentena da população brasileira com remuneração salarial digna (valor maior ou igual a 01 salário mínimo) para todos os trabalhadores brasileiros que foram obrigados a ficarem em casa durante a quarentena. Tal medida não somente permitiria a realização da quarentena por milhões de brasileiros, assim como também garantiria a manutenção dos empregos a curto e médio prazo.

O que assistimos atualmente no Brasil é o vírus totalmente fora de controle e a promoção por parte do Estado de um verdadeiro extermínio de classe, onde milhares de trabalhadores pobres e desempregados morrem cotidianamente no país. Se antes da pandemia os números da miséria e do desemprego já eram altos, promovendo uma vida anormal, esses números aumentaram assustadoramente durante este ano de 2021. A pandemia ajuda a desnudar e também potencializar as injustiças e mazelas do Brasil e do mundo.