sexta-feira, 5 de março de 2021

Esportes e Pandemia: a normalidade impossível

      

Foto 01 - Sanitização do Estádio do Maracanã na cidade do Rio de Janeiro em plena pandemia


(Escrito por: Renato Coelho)


Sempre os governos de diferentes países e em diversas épocas utilizaram os esportes como instrumento ideológico e de manipulação da população, desde Getúlio Vargas, passando pelos presidentes do regime militar, FHC, Lula, Dilma e chegando até aos dias atuais. E nestes tempos tenebrosos de pandemia não tem sido diferente. As velhas e demagógicas políticas de controle estão sendo constantemente utilizadas por governos, instituições e também pela grande mídia no sentido de forçar as pessoas a acreditarem que mesmo em um contexto de pandemia, com as curvas ascendentes de mortes e de contágios pelo novo coronavirus no Brasil, cinicamente vaticinam que a vida pode simplesmente seguir nos antigos padrões da normalidade social ignorando a alta transmissibilidade e letalidade do vírus Sars-Cov-2 e suas mutações não menos perigosas. O que estamos a assistir é uma tentativa obstinada por parte do Estado, da grande mídia e também dos grandes empresários em impor uma normalidade impossível em tempos de descontrole total da pandemia no Brasil. Podemos denominar este atual contexto de a Ditadura do Falso Normal, onde se naturaliza a morte em massa a fim de permitir uma continuidade da vida dentro de uma descontinuidade em tempos de pandemia. Hospitais em pleno colapso de atendimento, com colocação de contêiners de câmara fria nos pátios para acomodação de corpos, multiplicações de mutações virais mais letais, falta de vacinas, escassez de oxigênio medicinal para o atendimento de pacientes com Covid-19 e campeonatos estaduais, nacionais e internacionais de futebol, basquete e outros esportes ocorrendo normalmente em solo brasileiro. Além de aumentar os contágios entre os atletas e os seus familiares, a continuidade das práticas esportivas profissionais é capaz de provocar ainda o adoecimento ou a morte de centenas de outros trabalhadores envolvidos direta ou indiretamente com o espetáculo esportivo. Além deste grave e real problema sanitário de contágio dentro do ambiente esportivo, tais eventos no contexto brasileiro de aumento de transmissão criam uma falsa normalidade capaz de expor milhões de pessoas ao vírus, ao fazerem as mesmas acharem que a vida já voltou ao normal, porque os seus times do coração voltaram a jogar os campeonatos nacionais, de fora de consciente ou inconsciente, essa ação de assistir o jogo e torcer, mesmo que pela TV, é capaz de provocar um relaxamento da maioria da população, sob  o discurso falacioso do “novo normal”, de um normal que nunca existiu, mesmo antes da pandemia. Esse bombardeio constante de propaganda da falsa normalidade atinge a todos e colabora com a necropolítica do Estado brasileiro em transformar a curva exponencial da pandemia no Brasil na mais alta e longa do mundo, sob um platô com uma média móvel de 900 a 1000 mortes diárias. Os números e a matemática ratificam que a vida não segue nada de normal.

O esporte a partir do século XX se transforma em espetáculo midiático e em megaevento de entretenimento de bilhões de espectadores em todo o mundo. O esporte mercadoria se transforma em produto de consumo e é ofertado não mais como exercício físico, promoção de bem estar ou prática de lazer, mas é transformado em objeto de contemplação e de fethiche. O sujeito que antes praticava o esporte e o próprio esporte se transformam em objetos reificados. O ativo praticante e desportista do dia a dia  ou aquele torcedor apaixonado pelo seu time e frequentador dos estádios desaparecem no mundo do esporte espetáculo moderno e passam a dar lugar ao consumidor passivo do entretenimento esportes, um mero sujeito inerte que apenas contempla virtualmente o esporte espetacularizado e globalizado, que se transformou apenas em imagem a ser vendida e consumida. Nessa metamorfose para se enquadrar no processo de fetichização capitalista, o esporte não apenas se transforma em mais uma mercadoria, mas também perde seus significados, seus símbolos, regras e tradições. Nesse processo de mercadorização e de aniquilamento dos sentidos dos esportes, ocorre o empobrecimento e a perda dos seus elementos constitutivos e essenciais ligados a estética, a arte, ao popular e à história humana.

Mas o esporte não é hoje uma mercadoria qualquer, mas sim uma mercadoria singular e que movimenta uma cifra de bilhões de dólares no mundo. E além de produzir uma escala astronômica de lucros aos seus patrocinadores, os esportes possuem também um capital político e ideológico incomparáveis. Um exemplo marcante dos esportes como instrumento ideológico foi demonstrado durante o período da chamada Guerra Fria, quando da polarização do mundo entre a antiga União Soviética (URSS) e os EUA, que dividiu o planeta entre países capitalistas  apoiados e liderados pelos EUA e os países do bloco comunista, ligados à antiga União Soviética. Durante este período as olímpiadas se transformaram em palco de disputas hegemônicas entre atletas do mundo capitalista versus atletas do mundo comunista. Nestas disputas, no entanto, o “fair play” nunca existiu, pois eram constantes e comuns os escândalos com doping envolvendo atletas de ambos os lados e que utilizavam esteroides anabolizantes e outros fármacos para alcançarem o pódio e as cobiçadas medalhas olímpicas, e com isso a hegemonia nos esportes mundiais que servia como a mais poderosa e eficaz propaganda estatal.

Foto 02 - Filme Rock mostra o contexto da Guerra Fria nos esportes: Rocky Balboa (USA) x Ivan Drago (URSS)

Nos países da América Latina não foi diferente o uso dos esportes por governos e regimes ditatoriais, sempre houve ações estatais que transformaram os esportes em bandeira de propaganda de representantes políticos ou de partidos. Na Argentina de Perón ao Brasil de Vargas, sempre se soube do grande poder de fascínio, de êxtase e de admiração provocados pelos esportes, em especial do futebol, sobre a maior parte da população.

Durante o período em que vigoraram as ditaduras militares na América do Sul, houveram casos emblemáticos e históricos onde o Estado se utilizou do esporte para promoção e propaganda de seus ideais e valores, sob o falso manto do triunfalismo, da eficiência, do mérito e da sobrepujança, que são as características do esporte. E mais ainda, aqueles que conseguiam as qualidades de serem os mais rápidos, mais velozes, que iam mais altos e mais longe estavam então à serviço da propaganda do Estado.

A ditadura militar do presidente Videla na Argentina utilizou a Copa do Mundo de 1978 como propaganda do regime ditatorial para o mundo, tentando esconder as mazelas sociais do país, a pobreza e a violência estatal contra a os opositores da ditadura. A Argentina que era sede da Copa do Mundo FIFA de Futebol em 1978 aumenta a violência e a repressão aos opositores no país durante o período da Copa. Enquanto a bola rolava nos gramados argentinos, milhares de pessoas passavam fome nos subúrbios das grandes cidades devido à miséria no país ou eram presas, torturadas e mortas pela polícia argentina.  Mas a propaganda de Videla tentava passar ao mundo, a visão de uma outra Argentina, bem diferente daquela que se via nas ruas de Buenos Aires ou nos porões da polícia de todo o país. A propaganda estatal era a de uma Argentina do “país do futebol” e da seleção de Passarela campeã do mundo em 1978. Mas, para se chegar à final da copa e ao título, o governo argentino promoveu várias intervenções junto à Fifa e também na escancarada manipulação de jogos que beneficiaram o time anfitrião. Um jogo bastante emblemático foi entre Argentina e Peru, onde a seleção Argentina necessitava vencer a equipe adversária peruana com um placar de 4 gols de diferença para avançar à próxima fase, e tirar a seleção do Brasil daquela Copa. Com visita do general Videla ao vestiário da seleção peruana antes e após o jogo contra a Argentina, o placar final de 6 X 0 a favor da Argentina, provocou a desclassificação do Brasil, e  fez a seleção argentina avançar à final e disputar o título contra a Holanda, sagrando-se campeã do mundo.

Foto 03 - Argentina campeã mundial na Copa do Mundo de 1978


No Chile, da mesma forma o ditador Augusto Pinochet, passa a promover intervenções e apoiar o Colo Colo, o time mais famoso e popular da época e que formava a base da seleção chilena. Com o objetivo também de tentar desviar a atenção da população chilena e do mundo das barbáries, atrocidades e genocídios promovidos pela ditadura chilena aos seus opositores, o governo do ditador Augusto Pinochet se utiliza do futebol como instrumento de controle e para mascarar a realidade. O Estádio Nacional do Chile em Santiago se tornou na época em um dos maiores símbolos da cruel ditadura chilena. Este famoso e importante estádio de futebol serviu de local de prisão e tortura para milhares de simpatizantes e apoiadores do governo deposto de Salvador Allende. Milhares de chilenos foram assassinados pela ditadura de Pinochet  dentro do Estádio Nacional do Chile. Um jogo que não aconteceu, mas que entrou para a história do futebol foi nas eliminatórias para a copa do mundo de 1974 na Alemanha, onde a seleção chilena deveria enfrentar a seleção da antiga União Soviética, mas o time russo se recusou a entrar em campo em protesto contra a ditadura de Pinochet e então a seleção do Chile vence o jogo por W.O e se classifica, com o estádio lotado com mais de 20 mil torcedores chilenos que não assistiram a jogo nenhum.


Foto 04 - Estádio Nacional do Chile 


No Brasil podemos citar também vários momentos sobre a utilização dos eventos esportivos como instrumento ideológico e de manipulação, que vão desde os governos de Getúlio Vargas, passando pelos militares pós 1964 e indo até os governos atuais.

Um dos episódios mais emblemáticos e marcantes da história do futebol brasileiro, e sobre a  ideologização do maior esporte nacional, ocorreu em 1970 na disputa da Copa do Mundo do México, onde a seleção comandada por Pelé & Cia, considerada a maior seleção de futebol de todos os tempos, se transformou na maior e mais poderosa bandeira de propaganda política da ditadura militar brasileira. Enquanto milhares de brasileiros, que se opunham à ditadura, eram torturados e mortos nos porões das delegacias policiais, o governo exaltava e patrocinava a chamada seleção canarinho que se consagrou tricampeã no México em 1970. A propaganda estatal sobre a seleção de Pelé não somente tentava passar uma boa imagem do Brasil no exterior, assim como também conseguia desviar o foco da população brasileira das questões importantes e ligadas à fome, à miséria , às injustiças sociais e sobretudo com relação à violência e repressão institucionalizada do Estado contra os próprios brasileiros. O futebol ajudava a vender a propaganda do “milagre brasileiro” referente ao crescimento artificial da economia e também promovia a falsa imagem criada pelos militares do regime caracterizado pelo slogan “Brasil Potência” ou “País do futuro”.

Foto  05 - General Emílio G. Médici recepciona seleção tricampeã do mundo em 1970.


Nos governos do PT, de Lula e Dilma, (2002-2016) mais uma vez se gastou muita energia e volumosas quantias em dinheiro para transformar o país na sede dos dois  maiores megaeventos  esportivos do planeta, a Copa do Mundo Fifa 2014 e Olimpíadas Rio 2016. A grande êxtase e o entusiasmo em sediar os megaeventos mais importantes do esporte moderno contribuíram também para desviar o foco e a atenção da população brasileira da sua realidade, camuflando os problemas sociais e servindo de capital politico para o governo. Porém, os gastos astronômicos com a construção das chamadas Arenas de futebol com padrão Fifa, que ultrapassaram os 30 bilhões de reais (somente o estádio Mané Garrincha em Brasília custou cerca de 1,5 bilhão de reais e com provas de superfaturamento). Os gastos com as  Olímpiadas do Rio em 2016 ultrapassaram os gastos com a copa do mundo de 2014, alcançando a cifra de 40 bilhões de reais. Os altos gastos com os megaeventos, sob o falso discurso de “Legado Olímpico”, e em contrapartida  a falta de investimentos em infra-estrutura ligadas à saúde, educação, saneamento e geração de empregos, e entre outros fatores importantes, provocaram protestos em todo o país, onde a população exigia com bloqueios de ruas e rodovias maiores investimentos em saúde e educação e ainda a não realização destes mega eventos esportivos. As consequências foram catastróficas com o endividamento público, a inexistência de nenhum legado da copa ou das olimpíadas e ainda o fracasso político da realização dos mega eventos ajudaram a derrubar a popularidade do governo do partido dos trabalhadores (PT), e dentre outros fatores também importantes, a crise gerada potencializou o processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef (PT) em 2016.

Foto 06 - Alunos e professores da UEG cercam o ônibus da seleção brasileira de futebol em frente ao Mercury Hotel no Setor Oeste em Goiânia durante amistosos de preparação para a Copa das Confederações no ano de 2013. (Movimento Mobiliza UEG).


Hoje, durante a pandemia do novo coronavirus e o governo de Jair Bolsonaro, também podemos observar a velha estratégia de se utilizar o esporte como propaganda na criação de uma falsa normalidade, com as mesmas estratégias e mecanismos que adotados por governos anteriores, desde Vargas, passando pelos governos da ditadura militar pós 1964 e pelos governos do PT a partir da década de 2000.

A partir de agosto de 2020, ainda quando se observava grande aumento nas curvas de contágios e de mortes pelo novo coronavirus em todo o país, houve o reinício do campeonato brasileiro de futebol e também dos campeonatos estaduais. Mesmo sem público nos estádios, foram criados vários protocolos sanitários para evitar o contágio por atletas e pelas comissões técnicas. Mas o que assistimos foram vários surtos da covid-19 entre times de todas as regiões do Brasil, inclusive do Goiás E.C e também o Atlético Goianiense, ambos da capital goiana. E no dia 22 de setembro de 2020 o time com a maior torcida do Brasil teve 27 pessoas, O Clube de Regatas do Flamengo, entre atletas, comissão técnica e cartolas, contaminados em viagem à cidade de Guayaquil no Equador pela disputa da copa Libertadores da América. O time que mais pressionou as autoridades para o reinício dos jogos durante a pandemia, teve praticamente quase todo o time e o próprio técnico contaminados pelo vírus Sars-Cov-2, provando assim que não existe protocolo seguro quando a transmissão do vírus é acelerada e ascendente (Rt>1).

Como se não bastasse, existe hoje no Brasil uma forte pressão de clubes sobre a CBF no intuito de liberar a participação de torcedores nos estádios durante a pandemia. Esse movimento também é encabeçado pelo time do Flamengo, que exige a abertura dos portões e das bilheterias aos torcedores. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, na época de olho nas eleições municipais, cedeu à pressão e aprovou a reabertura do Maracanã aos torcedores. Mas com a revolta de outros dirigentes de clubes importantes, como Botafogo e Fluminense,que não concordam com a reabertura apenas do Maracanã, a prefeitura carioca e o Flamengo voltaram atrás na tentativa de abrir os portões para os torcedores em plena pandemia.

Foto 07 - Flamengo Campeão Brasileiro em pleno crescimento da segunda onda de Covid-19 no Brasil.


O que está de fato por detrás da volta do futebol e também das torcidas  nos estádios em pleno aumento de casos e de contágios na pandemia? Hoje o país contabiliza mais de 250 mil mortos pela covid-19 e várias cidades, como Goiânia, experimentam atualmente o pico de casos e de mortes na pandemia na chamada segunda onda. Essa chamada necropolítica que promove o genocídio de brasileiros em todos os estados da federação, representa a tentativa desesperada e pragmática dos governos do país (federal, estaduais e municipais) em criar uma falsa normalidade (alguns denominam de “novo normal”), onde o esporte e principalmente o futebol pode ser capaz de criar no imaginário das pessoas a falsa sensação de que a vida voltou a ser como antes, uma ilusória percepção de que podemos sair de casa e trabalhar como se a pandemia já estivesse terminado.  Mas é o contrário, a pandemia está em sua fase mais letal e veloz, ceifando milhares de vidas a cada instante. Há uma estimativa do próprio Ministério da Saúde que prevê mais de 3.000 mortes diárias no Brasil para os meses de março e abril de 2021, e os campeonatos estaduais e a Copa do Brasil ainda continuam com os seus jogos ainda em andamento.

Vê-se assim uma tentativa desesperada de  recuperar as perdas da economia, em um país onde o governo se utiliza de um discurso negacionista, se isenta na criação de políticas públicas de mitigação dos contágios, faz então multiplicar as tentativas e as propagandas de um falso normal, onde os esportes servem de instrumento de mascaramento do verdadeiro extermínio de classe no Brasil durante a pandemia. As pessoas são induzidas e convidadas a consumir e se divertir mesmo com o vírus letal e sem controle nas ruas. E o esporte é mais uma vez este mecanismo importante de criação da normalidade impossível, tal qual ou muito pior, do que se assistimos durante os períodos da chamada Guerra Fria, nas ditaduras da América Latina ou ainda com os já citados megaeventos dos governos do PT no Brasil.

A grande verdade, todos já sabem, para se controlar uma pandemia em um país pobre como o Brasil requer grandes investimentos que garantam a manutenção financeira das famílias de todos os trabalhadores, dos desempregados e dos mais pobres, também a criação de políticas públicas coordenadas na área da saúde, capazes de promover a testagem em massa, o rastreamento em massa, o isolamento em massa e o tratamento de todos os contaminados do país, sejam os casos mais graves ou assintomáticos. Ainda um programa de vacinação em massa que seja eficiente e rápido a fim de frear as mortes pela Covid-19.  Porém, nenhuma destas ações se praticam no Brasil, daí o caminho mais fácil em colocar o trabalhador dentro dos estádios ou em frente da TV para assistir o seu time em plena pandemia. O atalho está sendo feito em utilizar os esportes como anestésico para uma população em pânico e à beira de uma revolta por causa dos prejuízos e do aumento da miséria provocado pela pandemia. Essa é a velha estratégia dos governos e do Estado para se criar o falso normal, porém, a fome não é falsa e não se podem esconder os cadáveres de milhares de mortos. E o culpado, obviamente, não é o vírus.

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

COVID-19: Lugar de Criança não é na Escola

 

Colégio Estadual Murilo Braga - bairro Vila Nova em Goiânia-Goiás


(Escrito por: Renato Coelho)

Atualmente as crianças estão sendo uma das maiores vítimas da pandemia da Covid-19 em todo o mundo. Talvez sejam as que mais estão sendo afetadas pelas regras de isolamento social decretada por diversos países ao redor do planeta, já que as crianças constituem o grupo que mais tempo tem experimentado o confinamento de forma contínua em casa, haja visto o fechamento de escolas e creches há quase um ano. Não há dúvidas que para a maioria das crianças, o isolamento social afeta drasticamente o seu desenvolvimento motor, cognitivo e social, já que as interações e os relacionamentos coletivos nesta faixa etária são primordiais para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores da mente.

Várias escolas e creches de vários países distintos ensaiaram o retorno às aulas presenciais, mas devido ao alto número de surtos e contágios pelo novo coronavírus e de suas mutações mais transmissíveis e contagiosas, tais escolas fecharam novamente os seus portões, seja na Europa, Ásia, Oceania, África ou na América. O retorno às aulas presenciais no atual momento da pandemia no Brasil se torna algo totalmente impossível, sejam quais forem os protocolos de segurança sanitária, pois as novas variantes do vírus são cerca de dez (10) vezes mais contagiosas, tornando inevitáveis surtos entre crianças escolares, pois as escolas são por natureza ambientes de aglomerações.

O que fazer então com as nossas crianças?

No caso específico da cidade de Goiânia, que atualmente experimenta uma segunda onda com índice de transmissão superior a um (01) Rt>1, e com previsões de pico de contágios provavelmente para os meses de março e abril, o recomendado neste contexto é ainda o isolamento social e a adoção somente de aulas virtuais (on-line), ao contrário do que diz em as autoridades locais que estão permitindo a abertura de escolas com 30% de ocupação e sistema de rodízio de alunos e de turmas.

Neste momento tão complexo, difícil e delicado, sugerimos alternativas para a promoção de um estilo de vida mais saudável e humanizado para as crianças durante a pandemia. Ainda que as crianças estejam em aulas remotas e sem aulas presencias, é possível criar uma rotina saudável, lúdica e humanizada para as crianças em tempos de isolamento social na pandemia.

Uma das principais considerações e argumentos para a manutenção das aulas presencias para as crianças na pandemia, diz respeito ao atraso no desenvolvimento infantil, e podendo produzir sequelas no desenvolvimento e na aprendizagem das crianças. Porém, o que os defensores desta tese desconsideram, são as sequelas ainda piores e mais agressivas provocadas pela covid-19 em crianças, ou seja, as síndromes pós covid-19, além de graves e duradouras, sejam em crianças ou em adultos, possui um outro importante agravante, tais sequelas e síndromes são totalmente desconhecidas a longo prazo, podendo gerar doenças crônicas, ou seja, que até o presente momento não possuindo cura pela medicina. Portanto, colocando tudo na balança, é notório que ser contaminado por covid-19 pode acarretar danos e problemas maiores do que aqueles provocados pelo isolamento social em si e pela ausência às aulas presenciais. A verdade é que os problemas relacionados ao retardo no desenvolvimento ou na aprendizagem podem ser sanados e recuperados a curto ou médio prazos, porém, as sequelas e os danos da covid-19 ainda são uma grande incógnita e a ciência ou a medicina não podem garantir nada sobre este tema novo e recente relacionado às consequências da covid-19 a longo prazo na infância.

A sugestão é não levar as crianças às aulas presenciais nas escolas, e sim criar atividades lúdicas em casa a fim de provocar um desenvolvimento infantil capaz de amenizar os danos provocados pelo isolamento social intermitente. Obviamente que nada substitui as interações sociais entre as crianças e é sabido por todos a péssima qualidade e exclusão das aulas remostas (EaD), porém, as ações lúdicas sugeridas para as crianças se refere ao período atual da pandemia, que deverá ainda perdurar por alguns duros anos. A nossa proposta é baseada na Teoria Histórico Cultural de Vigotski sobre o lúdico e a infância. Seja em casa, no quintal, na praça, na rua ou nos parques infantis, estes são ambientes mais seguros do que as escolas para as crianças, desde que as visitas a estes ambientes estejam autorizados pelas autoridades sanitárias e que sejam escolhidos horários com menor fluxo de pessoas, e também mantendo os contatos somente com sujeitos da mesma família, com o uso de mácaras, álcool em gel e com distanciamento social (sem aglomerações). As escolas são projetadas em função das aglomerações, e por natureza são ambientes de múltiplos contatos, e que em tempos de pandemia podem propiciar novos surtos e acelerar os contágios.

 

A Criança, o Brincar e a Teoria Histórico Cultural

O enfoque histórico-cultural se fundamenta essencialmente no fato de que o desenvolvimento psicológico humano é um processo complexo, cujas origens se encontram nas condições e organizações do contexto social e cultural, construídos ao longo das vivências do indivíduo.

A análise histórico-cultural elaborada por Vygotski foi altamente influenciada pelas concepções do materialismo histórico dialético de Marx e Engels, de onde ele extraiu os conceitos sobre atividade, mediação semiótica e a ideia central de que o ser social determina a consciência social.

Vygotski considerava ainda a dupla dimensão do ser humano, sujeito e sujeitado, dando grande importância à participação do outro no processo de significação e constituição do sujeito, sem negar a efetiva participação do Eu, social e historicamente produzido. (ZANELLA e ANDRADA, 2002, p.127).

Vygotski lutou durante toda a vida para mudar todo o paradigma de sua época, ao explicar que o psíquico humano não era apenas algo inerente ao desenvolvimento biológico, era na verdade uma realidade complexa e dinâmica entre o biológico, o social e o cultural.

 

Vigotski esclarece que o desenvolvimento é um processo dialético, marcado por etapas qualitativamente diferentes determinadas pela atividade mediada, justamente o que o promove. Via atividade o homem (entendido enquanto sujeito genérico) é capaz de transformar sua própria história e a história da humanidade, posto que por seu intermédio transforma o contexto social em que se insere e ao mesmo tempo se transforma. (ZANELLA E ANDRADA, 2002, p.128)

 Para Vygotski o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores não são idênticos, nem redutíveis aos fatores que explicam os processos psicológicos elementares, com os quais estão relacionados os processos de desenvolvimento natural. Os processos psicológicos superiores se firmam a partir da participação dos sujeitos em atividades sociais valendo-se de instrumentos de mediação.

O ensino deve servir então como elemento inerente aos processos de desenvolvimento da criança. E é durante tal desenvolvimento dessas relações organizadas que evoluem as funções psíquicas superiores da criança.

A partir da compreensão de que o bom ensino deve operar sobre as conquistas de desenvolvimento ainda em aquisição e adquiridas com auxílio do outro, surge o conceito de desenvolvido por Vygotski de Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI):

A distância entre o nível evolutivo real determinado pela resolução independente do problema e o nível de desenvolvimento potencial determinado pela resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou em colaboração com os colegas mais capazes. (VYGOTSKY, 1998, p.86).

Este é um dos conceitos centrais da teoria de Vygotski, é a chamada zona de desenvolvimento iminente, que é a distância que existe entre o que a criança sabe fazer sozinha e o que pode fazer com a ajuda do outro.

As atividades quando inseridas dentro da Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI) permitem trabalhar sobre as funções ainda em desenvolvimento, que não foram plenamente consolidadas, criando uma estreita conexão entre aprendizagem e desenvolvimento, contribuindo para a formulação de indicadores didáticos e avaliativos para o desenvolvimento infantil, quando favorecido pela construção de um cenário de aula que considere o contexto sócio-histórico dos alunos.

As teorias de Vygotski se tornam fundamentais para a compreensão e o resgate do valor e importância do jogo e do brinquedo. A contribuição principal de Vygotski sobre o jogo ou o brinquedo, é a sua valorização, acrescida pela estreita relação que este autor estabelece entre o jogo e a aprendizagem.

Uma das situações que se apresentam como importantes para a análise do processo de constituição do sujeito é a brincadeira infantil. Rompendo com a visão tradicional de que a brincadeira é a atividade natural de satisfação de instintos infantis, Vygotski apresenta o brincar como atividade em que tanto significados sociais e historicamente produzidos são veiculados quanto novos podem ali emergir. (ZANELLA e ANDRADA, 2002, P.128).

As intenções e ações lúdicas no jogo possibilitam a criação da Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI), promovendo a internalização do real e o desenvolvimento cognitivo.

Logo, o brincar da criança passa a ser uma transformação criadora, ela também tem a possibilidade de criar, mesmo sob diferentes escalas, mas cria a partir do que conhece e das oportunidades oferecidas, dentro de suas próprias necessidades e preferências. Dentro do jogo resgata-se na criança sua posição de sujeito histórico e social, pois ela cria, ela imagina, ela pode participar ativamente do processo lúdico.

 [...] a criança vê um objeto, mas age de maneira diferente em relação ao que vê. Assim, é alcançada uma condição em que começa a agir independentemente daquilo que vê. (VYGOTSKI, 1998, p. 127).

Portanto, os jogos e brincadeiras possuem papel fundamental para a formação da plasticidade cerebral através de processos criativos, que irão transformar qualitativamente as funções cerebrais.

Considerações Finais

O resgate dos elementos lúdicos através de atividades de jogos e de brincadeiras é de fundamental importância para o desenvolvimento pleno das crianças. O brincar é essencial para o desenvolvimento e para a vida da criança. A sociabilidade e a aprendizagem realizada de forma coletiva permitem a criação da Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI), onde os jogos e brincadeiras se constituem em elementos fundamentais para este processo de ensino e aprendizagem na infância. Portanto, mesmo em tempos de pandemia, sem as aulas presenciais em escolas ou creches, é possível a promoção do desenvolvimento e da aprendizagem infantil, onde o outro que brinca com a criança pode também ser o pai, a mãe, irmãos, ou seja, todos os indivíduos do seu lar ou mesmo grupo familiar. Vemos assim que as aulas presenciais nas escolas poderão ser postergadas até que se garanta completa segurança para o retorno das crianças, sendo substituídas por atividades lúdicas em casa e junto com os familiares. A atual pressão obstinada pelo retorno imediato à aulas presenciais por determinados grupos, visam apenas atender aos interesses de empresas da área educacional e também de donos de escolas particulares que colocam os lucros acima da vida dos alunos. Assistimos atualmente em pleno ápice da pandemia, a tentativa insana da imposição de uma normalidade impossível, e o funcionamento das escolas na forma presencial, assim como o retorno precoce das atividades esportivas, visam apenas a criação deste falso normal para a manutenção e continuidade da reprodução do capital, ao custo da saúde e da vida dos trabalhadores e dos filhos dos trabalhadores, caracterizando assim um verdadeiro extermínio de classe. Evidencia-se assim a urgência na superação deste atual modelo de mundo pautado na exploração, na exclusão, no individualismo e na destruição da natureza.

Referências

VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ZANELLA, A.V.; ANDRADA, E.G.C. Processos de Significação no Brincar: Problematizando a constituição do sujeito. Psicologia em Estudo, Maringá, v.07, n.02, p.127-133, jul/dez. 2002.

  

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Quando não se deve iniciar as aulas presenciais durante a pandemia?

 


(Escrito por Renato Coelho)

No atual momento da pandemia no Brasil, com mais de 220 mil mortes (fevereiro de 2021), e quando a pandemia ainda se encontra totalmente fora de controle, um tema vem novamente ao debate: o retorno das aulas presenciais nas escolas do país. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) são cerca de 44 milhões de estudantes fora das escolas somente no Brasil (OPAS, 2020). Ainda segundo dados da UNICEF são inúmeros os problemas mentais e psicológicos que podem afetar as crianças devido ao tempo prolongado de fechamento das escolas:


O fechamento das escolas tem impactos profundos na vida de crianças e adolescentes. Com o início da pandemia no Brasil, em março, estima-se que 44 milhões de estudantes ficaram longe das salas de aula. Tendo em vista as diferentes realidades brasileiras, as opções de atividades para a continuidade das aprendizagens em casa não estão se dando de forma igual para todos. Manter as escolas fechadas por muito tempo pode agravar ainda mais as desigualdades de aprendizagem no país, impactando em especial meninas e meninos em situação de vulnerabilidade (Bauer, F. apud OPAS (2020))

 

Sabe-se, no entanto, que a retomada das aulas presenciais, sejam em escolas, creches ou universidades depende exclusivamente do controle da pandemia no país, a fim de garantir a segurança do convívio entre alunos, professores e todos os familiares envolvidos. São evidentes os vários problemas psicológicos, emocionais e que também afetam o desenvolvimento das crianças e jovens pelo fato das escolas ainda estarem fechadas, porém, uma atitude irresponsável e insana seria autorizar o reinício das atividades presenciais em escolas no ápice de uma segunda onda da covid-19 no Brasil e agravado por uma nova mutação do vírus Sars-Cov-2 (B.1) encontrada primeiramente em Manaus, mas que já possui transmissão comunitária em praticamente todo o território nacional, cuja transmissibilidade é cerca de dez (10) vezes maior e as infecções produzidas mais graves do que as experimentadas pelas cepas de 2020.

É importante destacarmos, que antes mesmo de se iniciar a  discussão sobre o retorno das aulas presenciais no Brasil, se torna ainda mais urgente e imprescindível  para toda a sociedade, o debate pleno e aberto sobre a realidade do (des)controle da pandemia em todas as regiões do país, ou seja, o debate sobre a existência das políticas públicas de testagem em massa, sobre a eficácia e gestão do sistema nacional de vacinação, também sobre a importância da continuidade do auxílio emergencial, a distribuição de oxigênio medicinal nos hospitais, o aumento dos leitos de UTI, o aperfeiçoamento das políticas de isolamento social e de uma maior distribuição de renda durante a pandemia. Para o retorno das aulas presenciais é necessário antes o controle eficaz da pandemia, saber onde está o vírus dentro de cada região e cidades do território nacional, possuir mecanismos para mitigar surtos e novos contágios, estratégias de realização de testagem em massa e a universalização do atendimento hospitalar aos infectados. Porém, não é o que se observa atualmente no país, ao contrário, observamos uma obsessão pelo retorno imediato das aulas presenciais nas escolas brasileiras e pelas flexibilizações das regras de isolamento social, pressão essa reproduzida pelos secretários municipais e estaduais de educação, e cuja origem reside nos interesses comerciais e financeiros dos grandes proprietários de escolas privadas, que tiveram seus lucros subtraídos com a  pandemia e que agora pressionam os gestores públicos para a reabertura de todas as escolas, públicas e privadas ao mesmo tempo, independente dos estudos dos índices de transmissão do vírus sars-Cov-2 nas cidades, demonstrando assim, que a pandemia no Brasil (e no mundo todo) se transformou num verdadeiro extermínio de classe, onde os impactos e mortes atingem de forma desproporcional e seletiva as classes mais pobres que não possuem acesso a assistência médico hospitalar de qualidade.

É notória a importância das escolas no desenvolvimento e na aprendizagem de crianças, jovens e adolescentes. As atividades coletivas, as tarefas em grupo e as aglomerações infantis potencializam o desenvolvimento das chamadas funções psicológicas superiores nas crianças, como a memória, o raciocínio, a linguagem e a escrita. Porém, com o início da pandemia do novo coronavírus, a partir do primeiro semestre de 2020, as aulas presenciais em escolas e universidades em todo o país foram suspensas como medida de mitigação de novos contágios pelo vírus Sars-Cov-2. As aglomerações humanas são as principais causas de contágios da covid-19, e as escolas e as universidades possuem uma dinâmica pedagógica e também uma arquitetura própria que tem como objetivo promover e incentivar as aglomerações, já que as atividades em grupo são facilitadores da aprendizagem. A começar pela arquitetura das salas de aula com dezenas de carteiras organizadas em filas paralelas ou em círculos, a organização do pátio e as atividades do recreio são planejadas em função das interações e aglomerações das crianças, a fim de permitir maior interação e sociabilidade. Podemos ainda citar os restaurantes e os banheiros coletivos de escolas que também possuem uma arquitetura que favorece as interações humanas. Entretanto, devido à voraz dinâmica de contágios do vírus Sars-Cov-2, mesmo com o início da Campanha Nacional de Imunização (vacinação) no Brasil, mudanças estruturais profundas deverão ser realizadas dentro da educação escolar em todos os níveis e também na educação superior para a mitigação de novos contágios de Covid-19 e de suas variantes futuras. As mudanças necessárias serão não apenas referentes ao número de alunos por sala, mas também com mudanças estruturais que vão desde a arquitetura das escolas, na dinâmica de horários de funcionamento das aulas, na contratação de novos professores (concursos públicos), maiores investimentos na infraestrutura das escolas como acesso à internet, saneamento, ampliação de salas e na construção de banheiros, quadras, jardins e maiores áreas de lazer e de recreação.

Segundo Tokarnia (2020), em relação às condições atuais das escolas no Brasil em tempos de pandemia, apenas 46,7% possuem saneamento básico, ou seja, mais da metade das escolas do país não possui tratamento de esgoto, água encanada ou coleta de resíduos sólidos. Dentro desta pesquisa apenas 30% das escolas públicas e privadas no Brasil possuem áreas verdes, quadras e áreas de lazer.

Quando se fala sobre o quesito infraestrutura escolar, segundo o Censo Escolar 2017, nas escolas de ensino fundamental no Brasil apenas 65,8% das escolas públicas possuem água encanada (água potável), 46,8% possuem laboratório de informática, 65,6% têm acesso à internet e nas escolas de educação infantil apenas 61,1% possuem banheiro adequado à sua faixa etária. No que se refere às creches, apenas 57,6% possuem parque infantil e para a pré-escola essa porcentagem cai para 42,7%, e menos de 30% das creches e das pré-escolas possuem áreas verdes (MARTINS, 2018).

Essa realidade escolar brasileira é um entrave para a reabertura das escolas e para a flexibilização das atividades de aulas presenciais. Considerando tal contexto em que se insere a maioria das escolas no país, com destaque para a total falta de infraestrutura dos espaços escolares, haverá uma potencialização de novos contágios e de óbitos na reabertura de escolas, creches e universidades durante o período atual de crescimento da segunda onda no país, com altos índices de transmissão do vírus (Rt>1), provocando um aumento expressivo de contaminações e mortes por covid-19 entre os escolares e os seus familiares, agravando mais a espantosa realidade dos números da pandemia no Brasil.

Por que não se deve iniciar as aulas presenciais atualmente no Brasil?

Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC - https://www.cdc.gov/) sediado nos EUA, a retomada das atividades escolares na forma presencial somente deve ser recomendada quando o índice de transmissão do novo coronavírus estiver abaixo de 50 casos positivos novos (por dia) para cada um milhão de habitantes, pois essa taxa significa que o risco de transmissão do vírus seria baixo para um ambiente escolar e demonstrando também que a pandemia estaria realmente sob controle numa dada região que apresente estes números. Além disso, para a reabertura das escolas de forma segura, seria também necessário um decréscimo contínuo de no mínimo 4 semanas consecutivas nos índices de contágios e de óbitos numa determinada localidade ou município. Os leitos hospitalares de UTI´s para covid-19 também devem possuir um percentual baixo de ocupação (abaixo de 70%). Vemos assim que nenhuma cidade ou estado do Brasil se enquadraria nestes critérios mínimos de segurança para reabertura de escolas. Soma-se a esses dados da pandemia o alto estágio de precarização e de sucateamento em que se encontram atualmente as escolas e universidades públicas do país, que não possuem condições mínimas em promover a higiene e distanciamento dos alunos para prevenção de novos contágios. Portanto, o forte apelo para o retorno imediato das aulas deveria ser substituído pelo debate sobre maiores investimentos nas escolas, ampliação do número de salas de aulas, saneamento e instalação de água potável nas escolas, ampliação da oferta de internet gratuita aos estudantes, realização de novos concursos públicos para docentes e o fornecimento de auxílio financeiro às famílias dos estudantes de escolas públicas durante o período da pandemia.

 

Por que não se recomenda o retorno das aulas presenciais hoje?

No mundo moderno, as escolas são ambientes complexos e locais de aglomerações de pessoas. São espaços singulares e cuja dinâmica espacial e temporal segue uma lógica fordista de funcionamento, com crianças em filas, carteiras enfileiradas, corredores e salas dispostos também de forma linear, reproduzindo um ambiente fabril. O advento da pandemia do vírus Sars-Cov-2 colocou em xeque a retomada das aulas presenciais nas escolas e obrigou a sua continuidade no chamado Ensino à Distância (EaD), de forma excludente e com todas as já conhecidas limitações das aulas virtuais.

Segundo uma recente pesquisa realizada pela Universidade de Granada (UGR) na Espanha sobre a retomada das aulas presenciais naquele país nos trazem números e fatos importantes sobre as relações entre a dinâmica de interações das escolas e o comportamento do vírus Sars-Cov-2 (ARROYO, 2020).

Segundo os pesquisadores da Universidade de Granada, considerando a realidade espanhola, de uma sala de aula com vinte (20) crianças, sendo que as famílias destas crianças escolares são constituídas pelo pai, mãe com um (1) ou dois (2) filhos (nesta simulação do cálculo considera-se que metade dos alunos tenham um irmão que também estuda na mesma escola e a outra metade é composta por crianças consideradas “filho único”). Ao se considerar todos os contatos realizados por uma única criança, apenas no seu primeiro dia de aula, e sem considerar os contatos externos à escola (rua, mercado, ônibus, etc.) será contabilizado 74 contatos com outras pessoas da escola, ou seja, cada criança da escola será exposta a outras 74 pessoas no seu primeiro dia de aula, considerado apenas os contatos exclusivos com sujeitos da sala de aula e da família (ver Figura 01 abaixo).


Figura 01 – Esquema do número total de contatos entre alunos de uma mesma escola.


Para o segundo dia de aula, desconsiderando as regras de distanciamento social, os contatos sobem para 808 interações para cada aluno da classe. Já para o terceiro dia as interações serão de 15.000 para cada aluno. Os números comprovam o grande risco de uma criança da sala estiver infectada com a Covid-19, elevando o grau de contaminação para toda a escola. A partir daí, pode-se ter uma noção dos riscos em se abrir as escolas em período de pandemia, pois é colocado em risco nesta situação, não somente a saúde mental das crianças ou o seu futuro desenvolvimento, mas acima de tudo a própria vida da criança é colocada em risco, principalmente em um retorno às aulas presenciais num momento de alta de casos e de contágios, e ainda com um retorno de forma pragmática e sem planejamento como estamos presenciando.


Tabela 01 – Número de interações entre alunos durante os primeiros dias de aulas presenciais na escola

Imaginemos então como se daria a replicação destes contatos diários nas escolas brasileiras, onde a massificação de turmas, com médias superiores a 40 alunos por sala, a falta de professores concursados, salas pequenas e com pouca ventilação, banheiros inadequados e sem água potável em muitas escolas do país. Obviamente que as escolas se tornariam assim espaços denominados de super-espalhadores, com potencial aumento de surtos e de contágios pelo novo coronavírus.

Mesmo havendo o uso de máscaras e com as regras de distanciamento social dentro das escolas, não é recomendado o retorno das aulas presenciais quando houver alta de contágios numa cidade, região ou país (Rt>1), pois todos os protocolos de biossegurança neste contexto se tornam ineficazes. Quando se vivencia um momento de alta de contágios e de óbitos, não há outra alternativa, a não ser o isolamento social e a suspensão completa das aulas presenciais. A sugestão é priorizar a vida dos escolares e não as aulas em si, pois o retorno seguro das aulas presenciais no Brasil se dará somente após a efetivação da Campanha Nacional de Imunização (vacinação), já que não temos políticas públicas de mitigação de contágios como testagem em massa, rastreamento de novos conatos, ampliação de leitos de UTI’s e de atendimento médico hospitalar de qualidade para toda a população.

 

Bibliografia Consultada

ARROYO, J. Colocar 20 crianças numa sala de aula implica em 808 contatos cruzados em dois dias, alerta universidade. Jornal EL PAÍS, jun. 2020.  Disponível em: < https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-06-17/colocar-20-criancas-numa-sala-de-aula-implica-em-808-contatos-cruzados-em-dois-dias-alerta-universidade.html>. Acesso em:03/02/21.

MARTINS, H. Censo aponta que escolas públicas ainda têm deficiências de infraestrutura. Agência Brasil EBC, 2018. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-01/censo-aponta-que-escolas-publicas-ainda-tem-deficiencias-de-infraestrutura>. Acesso em: 03/02/21.

OBSERVATÓRIO COVID-19 BR. Experiência internacional na reabertura de escolas e situação no Brasil: porque não podemos fazer comparações diretas.Set, 2020. Disponível em: < https://covid19br.github.io/analises.html?aba=aba12#>. Acesso em: 03/02/21.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Reabertura segura das escolas deve ser prioridade, alertam UNICEF, UNESCO e OPAS/OMS. Set, 2020. Disponível em: < https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6283:reabertura-segura-das-escolas-deve-ser-prioridade-alertam-unicef-unesco-e-opas-oms&Itemid=812>. Acesso em: 03/02/21

TOKARNIA, M. Quase metade das escolas não tem todos os itens de saneamento básico. Agência Brasil EBC, 2020. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-06/quase-metade-das-escolas-nao-tem-todos-os-itens-de-saneamento-basico>. Acesso em: 03/02/21.

                                                                                                   


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A Natação e a Segunda Onda da Pandemia no Brasil: caos e incertezas




(Escrito por Renato Coelho)

As pandemias na história mundial são descritas por ciclos chamados de “ondas”, que indicam a sua frequência ou o número de repetições ascendentes (ver figura 01 abaixo). Uma onda representa o intervalo no qual se observa elevação contínua e exponencial de contágios ou de mortes e é sempre seguida por um pico (ponto máximo de casos ou mortes) e vindo logo após, uma queda também contínua, porém, abrupta. Uma onda pode ainda ser seguida por um “platô”, o chamado platô de casos representa um intervalo de estabilidade, onde se observa a manutenção de contágios ao longo do tempo após se atingir o pico, entretanto, sem decréscimo ou queda dos números.

Na pandemia da chamada gripe espanhola ocorrida entre os anos de 1918 a 1920, foram observadas quatro (4) ondas ao longo do período. O número total de mortos da gripe espanhola não é preciso, mas há estimativas que apontam em mais de 60 milhões de mortes. Evidências mostraram que o vírus surgiu entre soldados numa base militar localizada nos EUA durante a Primeira Guerra Mundial. O deslocamento das tropas americanas pela Europa ajudou na difusão do vírus pelo planeta, provocando o surgimento da pandemia da gripe espanhola em 1918 com o retorno das tropas militares aos seus países de origem. O grande fluxo de soldados pelo mundo durante a Primeira Guerra Mundial fez explodir os casos e mortes pela gripe espanhola no planeta, inicialmente na Europa e nos EUA e em seguida se espalhando para todos os demais países do mundo.

 

Figura 01 – Curva exponencial de contágios em uma pandemia: A – primeira onda; B – segunda onda.

Atualmente, neste início do ano de 2021, o Brasil vivencia a segunda onda da Covid-19 com mais de 200 mil mortos. A primeira onda no Brasil teve início em março de 2020, porém, cada estado da federação experimentou uma curva ou onda diferenciada da pandemia, não somente com amplitudes e variações distintas, mas como também dinâmicas e tempos muito diferenciados na chamada primeira onda. O vírus Sars-Cov-2 chega ao Brasil principalmente pelos grandes aeroportos internacionais. A primeira onda no Brasil começou nas capitais e nos grandes centros urbanos e em seguida seguiu em direção ao interior pelas rodovias. Já a segunda onda que presenciamos atualmente, passou a ter um comportamento diferenciado, ela cresce de forma quase simultânea em todos os estados e entre as cidades do país, tanto em cidades grandes quanto pequenas.

Na primeira onda o vírus se concentrou primeiramente nas capitais, ficando muitas cidades sem confirmação da presença do vírus por um determinado tempo. Porém, nesta atual segunda onda observamos que todas as cidades do país, grandes, médias e de pequeno porte já possuíam a transmissão comunitária do novo coronavírus, e é essa nova característica que diferencia a primeira da segunda onda, e é capaz de explicar o crescimento maior e mais rápido desta segunda onda da pandemia no Brasil. O fato desta segunda onda estar também superando todos os recordes de casos e de óbitos da primeira onda se deve ao fato do relaxamento das regras de isolamento social e da exaustão da população com relação a essas mesmas regras. A exaustão das pessoas e o descrédito em seguir as regras de isolamento social por grande parte da população se deve ao fato da demora e do fracasso do Estado nas suas políticas públicas de controle da pandemia, ou mesmo na ausência destas políticas. Na verdade, nunca houve e ainda não há no Brasil, nenhuma política pública nacional de mitigação de contágios da Covid-19. O que assistimos é a eclosão de uma segunda onda que se iniciou em dezembro de 2020 e tem aumentado vertiginosamente já nos primeiros dias do ano de 2021, com amplitude e velocidade muito superiores aos da primeira onda vivenciada no ano anterior. Quando a pandemia está fora de controle e as pessoas, que outrora estavam em isolamento social em suas casas, passam a ter uma maior mobilidade nas ruas, faz provocar então um aumento de casos muito maior do que na primeira onda. Com a demora para se debelar uma pandemia por parte dos gestores públicos, a vida em isolamento contínuo se torna insuportável e desumana, logo as pessoas perdem o medo do vírus e tentam restabelecer hábitos da vida anterior, e nesse enfrentamento, quem sempre leva a melhor é o vírus, daí o alto número de internações e de óbitos. Numa primeira onda o medo do vírus ajuda as pessoas a permanecerem em casa, porém, com a demora ou ineficácia da liberação de auxílios econômicos aos indivíduos afetados, a demora com a politização e a mercantilização na distribuição das vacinas, também o desemprego, a fome e a falta de perspectivas futuras num país pobre como o Brasil, obrigam as pessoas ao tudo ou nada, e a única solução é a de encarar o vírus a fim de sobreviver, resultando num aumento no percentual da mobilidade urbana. Porém, como não existem tratamentos e a vacinação ainda é muito lenta e retardatária em relação à velocidade do vírus, as consequências passam a ser o elevado número de contágios e de óbitos.


Figura 02 – Curva exponencial de contágios no Brasil: A – primeira onda; B – segunda onda. (fonte: Ministério da Saúde  - https://covid.saude.gov.br/)

Podemos chamar de eventos “gatilhos” aqueles capazes de provocar grandes aglomerações em um determinado intervalo de tempo e em consequência produzir uma elevação importante nos contágios e nas internações em hospitais. Os eventos gatilhos podem fazer surgir uma nova onda na pandemia.

Três eventos importantes ocorreram no final de 2020 no Brasil e provocaram juntos uma explosão de casos e em consequência uma gigantesca segunda onda da covid-19 no país. Estes eventos chamados de “gatilhos” foram capazes de provocar uma ampliação exagerada de contágios no Brasil durante o segundo semestre de 2020 e também o colapso dos hospitais em vários estados da federação atualmente, porém, estes eventos sozinhos não são os únicos responsáveis pelo crescimento exponencial desta segunda onda. A ausência de testagem em massa, o sucateamento do sistema de saúde e a ausência de políticas de prevenção e de comunicação para com a população também foram fatores que somados, contribuíram grandemente para o caos sanitário no qual o Brasil se encontra hoje.

O primeiro “evento gatilho” foi o período de campanha eleitoral realizada nos municípios de todo o país realizados entre os meses de outubro e dezembro de 2020 (primeiro e segundo turno das eleições municipais 2020). O TSE autorizou a realização das eleições em pleno período de pandemia e ainda a promoção de campanhas eleitorais presencias, que foram foco de grandes e contínuas aglomerações entre os meses de novembro e dezembro de 2020. O segundo gatilho foi a celebração do Natal entre familiares e o grande movimento no comércio provocado por esta data comemorativa. Já o terceiro gatilho foram as celebrações e viagens de ano novo que também provocaram aumento significativo dos contágios.


 

Figura 03 – Curva exponencial de óbitos no Brasil: A – primeira onda; B – segunda onda. (fonte: Ministério da Saúde  - https://covid.saude.gov.br/)

Vale lembrar ainda que todos os países do mundo fracassaram com relação ao controle da pandemia. O vírus Sars-Cov-2 colocou todos os gestores e políticos do mundo de joelhos. Não adianta apenas culpabilizarmos a população, há erros graves por parte principalmente dos gestores e do próprio Estado no controle e erradicação do vírus Sars-Cov-2, pois a maioria das mortes poderia ter sido evitada, bastando a implementação de políticas seguras e efetivas de mitigação de contágios. É uma situação cômoda culpabilizarmos as vítimas da covid-19 pelos próprios contágios. Não podemos esquecer tão pouco que a iminência de uma pandemia no mundo era um tema já bastante discutido entre a comunidade científica internacional e também era do conhecimento das autoridades mundiais.

O que presenciamos e observamos atualmente com relação à pandemia, não é apenas uma incompetência ou incapacidade das autoridades em resolver o problema dos contágios e mortes, o que se comprova na realidade é a prática do chamado extermínio de classe, onde a maioria das mortes ocorrem nos lares dos trabalhadores pobres e de baixa renda, nas comunidades periféricas, entre a população negra, atingindo principalmente pessoas com comorbidades e idosos. Por isso o desinteresse, a insensibilidade e a demora na efetivação de soluções eficazes no combate à pandemia. 

A Natação e a Segunda Onda


Pelas análises anteriores e as taxas de crescimento observados nos gráficos atualizados do Ministério da Saúde sobre a pandemia no Brasil, podemos afirmar que todas as atividades presenciais de educação física deveriam ser suspensas imediatamente. O índice de transmissão (Rt) no Brasil atualmente está acima de um (Rt>1), inclusive em Goiás, sendo que existem regiões no país em que Rt  =2,7, mostrando que 100 indivíduos são capazes de contaminar outras 270 pessoas, provocando assim um crescimento exponencial de contágios. Na prática academias, escolas de natação, escolinhas de futebol, clubes e escolas em geral deveriam ter as atividades todas suspensas como medida de prevenção. Porém, sabemos que no Brasil não existem políticas de isolamento social capazes de garantir a segurança das pessoas contra o vírus e nem mesmo políticas econômicas de fomento para os professores de educação física ou para os donos de academias a fim de garantir o sustento financeiro destes trabalhadores durante uma possibilidade de isolamento social ou lockdown. Portanto, o que continuaremos assistindo é a manutenção da necropolítica dos governos e gestores brasileiros na condução da pandemia da covid-19 no país, com aumento contínuo de contágios, colapsos nas redes hospitalares e do sistema funerários de todos os estados do país.

O Programa Nacional de Imunização no Brasil não possui nenhum planejamento e eficácia, e a velocidade de transmissão do vírus é infinitamente maior do que a das vacinas, o que irá provocar mais mortes e uma demora muito maior para se atingir a imunização de toda a população (imunidade coletiva).  A única alternativa que resta à população é manter as regras de distanciamento social, ainda o uso contínuo de máscaras e a lavagem das mãos. Porém, vale lembrar que tais medidas de biossegurança não são suficientes para conter o vírus em locais fechados e com aglomerações quando o Rt > 1, ou seja, em escolas ou academias em períodos de aceleração da pandemia (Rt > 1) não há como conter a proliferação do vírus Sars-Cov-2, nestes ambientes, mesmo com o uso de máscaras, medição de temperatura corporal ou uso de álcool em gel, sendo o aconselhado a fazer é mesmo o fechamento destes estabelecimentos até que haja uma diminuição dos contágios por um período maior do que três semanas consecutivas (Rt < 1). Mas devido às relações de poder da sociedade capitalista e as dicotomias entre trabalho e saúde (economia x isolamento social) criadas no Brasil, dificilmente as decisões corretas serão acatadas pela sociedade. O que veremos mais uma vez nesta segunda onda é a própria natureza cuidando das taxas de velocidade e de transmissão do vírus, assim como aconteceu na primeira onda em 2020, quando o número elevado de contaminados e de mortos desacelerou o crescimento da pandemia no Brasil (hoje são mais de duzentos mil mortos no país), onde as consequências negativas e imprevisíveis, tanto na economia quanto para a saúde pública, passam a ser muito maiores, do que realmente com a realização do isolamento social.

Somando a toda a tragédia vislumbrada nos parágrafos acima, temos que acrescentar ainda as mutações genéticas do novo coronavírus detectadas no estado do Amazonas, mas que já estão espalhadas por todo o continente. As variações genéticas tem mudado radicalmente as características do vírus Sars-Cov-2, tornando-o mais transmissível, infeccioso e agressivo, transformando assim as transmissões mais fáceis e rápidas de pessoa para pessoa e ainda tornando mais severas as consequências da Covid-19 nos pacientes.

As atividades presenciais em natação na Universidade Estadual de Goiás deveriam permancer suspensas mesmo com o início do Programa Nacional de Imunização (vacinação), pois o índice de transmissão continua alto (Rt > 1)  e os efeitos práticos da vacinação serão observados somente em 2022. Além do mais, a UEG não possui nenhuma garantia de controle e de segurança contra o vírus em seus ambientes universitários. É sabido por todos, inclusive já foi veiculado nos canais da imprensa, sobre o sucateamento da universidade e da precarização em que se encontram seus prédios, salas e laboratórios. Atividades presenciais de natação ou qualquer outra atividade acadêmica colocaria em risco a vida de alunos, professores e de funcionários. Sendo assim, é de fato necessário no atual contexto de pandemia a permanência do ensino à distância, mas de forma provisória, mesmo tendo consciência das limitações e das injustiças provocadas pelo ensino remoto. Mas, devemos lutar para que essa forma de educação virtual não se generalize jamais dentro da universidade após o período de pandemia, e que os atuais mecanismos de luta possam pressionar a universidade a fomentar políticas internas de inclusão digital na forma de assistência estudantil, capazes de garantir de fato o alcance dos alunos a uma educação de qualidade e gratuita.