quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Os Superspreaders: a Educação Física em Xeque

 




(Escrito por Renato Coelho)

Atualmente, durante a  pandemia do novo coronavirus neste mês de outubro de 2020, o mundo vem batendo  a cada dia novos recordes de contágios, principalmente pelos novos surtos na Europa com o surgimento iminente de uma forte segunda onda e o crescimento vertiginoso de casos na Índia. São vários os fatores envolvidos na mecânica de contágios através do novo coronavirus, que vão desde  a amplitude da mobilidade humana, o distanciamento social, a frequência de aglomerações de pessoas, a utilização de máscaras, a higienização das mãos, a testagem em massa, o isolamento social, a densidade demográfica, as questões sócio-econômicas, o tratamento hospitalar dos doentes e também questões culturais que envolvem os contatos e interações interpessoais. Todos estes fatores  estão correlacionados ao porcentual de contágios e de óbitos numa determinada região. Essas variáveis influenciam diretamente na velocidade de contágios e na dispersão da pandemia no mundo. Entretanto, pesquisas realizadas pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (https://www.lshtm.ac.uk/) demonstram que cerca de 80% dos contágios da Covid-19 são transmitidos por cerca de apenas 10% dos contaminados. Por trás destes números se escondem  os chamados “Superspreaders”, palavra que traduzida para o português significa “Superespalhadores”, ou seja, existem certas pessoas e determinados ambientes que juntos são capazes de transmitirem o vírus numa escala muito superior à média regional ou nacional de uma dada região ou país. O surgimento dos  “Superspreaders”  está relacionado a questões biológicas do indivíduo (carga viral que ele carrega) e também a questões geográficas e culturais. Um “Superspreader” não é uma pessoa, mas sim um conjunto de situações ou evento social, que envolvem muitas pessoas, ambientes específicos e o vírus Sars-Cov-2. A combinação de certos locais, as aglomerações de pessoas e o vírus da covid-19, são os ingredientes mais que suficientes para o surgimento dos “Superspreaders”, ou seja, os ambientes super espalhadores do novo coronavirus.

Na história recente da pandemia do novo coronavirus, existem vários registros e confirmações de eventos “Superspreaders”. Um dos primeiros casos noticiados e documentados de ambientes Superespalhadores ocorreu na cidade de Washington nos EUA, onde 61 membros de um coral se reuniram sem as medidas preventivas contra a covid-19, entretanto, um dos integrantes do coral presente no encontro estava contaminado pelo novo coronavirus, porém era assintomático. Após a realização deste evento, 53 pessoas testaram positivas para a covid-19, 3 pessoas foram hospitalizadas e 2 morreram.

Outro exemplo de eventos superespalhadores ocorreu em uma igreja em Seul, capital da Coréia do Sul, onde uma mulher, membra da igreja e que apresentava sintomas leves da covid-19, e que por isso pensava apenas ser efeitos de um resfriado, frequentou uma reunião de oração onde todos os participantes tiraram as máscaras para a realização da liturgia da oração, e ao final daquela reunião, segundo dados do governo coreano, 43 fiéis da igreja foram contaminados por apenas uma única pessoa.

Vários outros casos ocorridos também no Brasil podem ser relatados como exemplo de eventos superespalhadores, como os jogadores e a comissão técnica do Flamengo, que se contaminaram em viagem ao Equador durante a realização do torneio de futebol Libertadores da América. Outro exemplo de ambiente superespalhador foi a posse do presidente do Supremo Tribunal Federal em setembro de 2020, onde a maioria dos convidados e membros da corte foram contaminados, mesmo seguindo protocolos rígidos de segurança contra a covid-19. Neste caso se destaca a aglomeração de pessoas num ambiente fechado com ar condicionado. A cerimônia durou mais de três (3) horas e as pessoas ficaram confinadas num lugar fechado e sem ventilação natural, e mesmo com distanciamento e o uso de máscaras, houve um grande número de contágios entre os participantes devido ao efeito aerossol do vírus Sars_Cov-2, permitindo o contágio pelo ar e tornando o salão do STF num espaço superespalhador. Outro exemplo superespalhador conhecido mundialmente foi a cerimônia na Casa Branca em setembro que contaminou o presidente e candidato à reeleição dos EUA, Donald Trump. Já neste caso não houve a utilização de máscaras pelos participantes e nem tão pouco foi respeitado o distanciamento social. Mesmo sendo um evento realizado ao ar livre, se transformou assim num superespalhador da covid-19.

Logo vemos que os chamados “Superspreaders” são eventos sociais capazes de potencializar a transmissão do vírus Sars-Cov-2. Se por exemplo, numa cidade o índice de transmissão (Ro) é alto e igual a 2 (Ro=2), significa que uma pessoa contaminada é capaz de transmitir o vírus para duas (2) outras pessoas. Mas no caso de um superespalhador, ele pode transmitir o vírus para 10, 50 ou 100 pessoas dependendo do contexto e não da constante de transmissibilidade Ro.

Qualquer ambiente onde ocorra aglomerações e não se respeitem as regras de distanciamento, o uso de máscaras e a lavagem adequada das mãos pode se transformar em um potencial evento superespalhador. Inclusive ambientes fechados e pouco arejados, mesmo com as prevenções adequadas, podem também se transformarem em superespalhadores, como no exemplo da cerimônia de posse no STF em Brasília, onde vários convidados da cúpula do judiciário, que mesmo usando máscaras e seguindo os protocolos rígidos de segurança adotados naquele tribunal, se contaminaram, transformando o salão do STF num espaço superespalhador.

Não existe um ambiente em si mesmo que seja superespalhador, esses ambientes são criados pelo contexto da aglomeração, e que combinando com várias variáveis, bastando apenas a presença de um única pessoa positiva para a covid-19, faz então surgir o superespalhador e consequentemente potencializando os contágios.

As escolas podem facilmente se transformarem em ambientes superespalhadores, pois elas tem todos os ingredientes necessários para a formação dos “superspreaders”. Por isso não se recomenda o retorno das aulas presenciais sem a existência de uma vacinação eficaz, devendo-se manter o ensino remoto com todas as suas limitações, a fim de se evitar novos contágios e mortes.

As academias de ginástica também podem se transformar em ambientes superespalhadores, pois são na sua grande maioria locais fechados com ar condicionado, com intensas aglomerações de alunos e constantes contatos (toques) manuais em aparelhos. Ressalta-se ainda a realização de uma intensa e explosiva respiração pelos praticantes de exercícios nas academias, também a alta sudorese, fatores que conjugados se tornam facilitadores de transmissões, levando risco aos professores e alunos. 

Mas que se observa atualmente, após as flexibilizações da quarentena, é que em várias academias alunos usam máscaras de forma incorreta (talvez devido ao grande calor e ao clima muito seco dos últimos meses) e ocorrem aglomerações entre alunos nos intervalos de aulas. Ou seja, muitos dos protocolos planejados para as academias em sua maioria não são colocados em prática durante as aulas ou mesmo não funcionam para o cotidiano de funcionamento das academias. E mais uma vez, tanto no ambiente escolar quanto para as academias, a educação física está sendo colocada em xeque, não pelo vírus Sars-Cov-2, mas pelo mercado insaciável do capital, que exclui os trabalhadores do direito à saúde e impõe o desemprego e a fome àqueles que não tem opção em escolher entre a vida ou o a super exploração do trabalho alienado.

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

A Educação Física no Brasil na Corda Bamba da Covid-19

 


(Escrito por Renato Coelho)

Nesta segunda-feira (05/10/20) o chamado Centro de Prevenções para Doenças (CDC) dos EUA divulgou em seu site (https://www.cdc.gov/) uma importante informação sobre os novos mecanismos de transmissão do vírus Sars-Cov-2. Foi confirmado pela comunidade científica internacional que a Covid-19 pode ser transmitida pelo ar em ambientes fechados com ventilação inadequada, desde que a pessoa contaminada pelo vírus esteja respirando profundamente dentro destes locais, como por exemplo, se estiver cantando ou se exercitando. Esse tema já vinha sendo discutido e debatido por médicos e cientistas em todo o mundo, mas somente agora foi confirmada pela comunidade científica internacional.

Essa confirmação demonstra que o novo coronavirus pode ser transmitido na forma de aerossóis, em pequenas partículas que ficam em suspensão no ar por um período de tempo prolongado e em ambientes fechados. Nestes casos a proteção por máscaras não funcionam, já que estes equipamentos de proteção servem de barreira física apenas para gotículas “pesadas” que caem perfazendo trajetórias balísticas  rumo ao chão ou pequenas partículas que contenham o vírus e que são atraídas para baixo pela gravidade, como por exemplo, gotas de saliva expelidas pela boca de uma pessoa contaminada. Os aerossóis que contém o vírus, ao contrário daquelas, são nanopartículas que “flutuam” no ar, que podem atravessar as camadas de proteção das máscaras e assim entrar  no sistema respiratório das pessoas que frequentam estes mesmos ambientes fechados e sem ventilação. Os aerossóis são partículas tão leves e minúsculas que podem levar o vírus a uma distância até mesmo superior a dois (2) metros de distância. Mesmo que a pessoa infectada já tenha saído daquele ambiente fechado, existe ainda a probabilidade de contágio por terceiros que adentrem tais espaços. As partículas virais em suspensão no ar na forma de aerossóis podem ficar por horas seguidas flutuando no ar em recintos fechados e não arejados. Essa nova informação prova que o vírus Sars-Cov-2 apresenta uma transmissão mais alta e perigosa do que se pensava anteriormente. Essas evidências exigem a tomada de maiores cuidados de proteção e na revisão dos protocolos de segurança contra a Covid-19.

Quando em ambientes fechados e sem ventilação adequada o vírus Sars-Cov-2 pode se transformar na forma de aerossóis e contaminar pessoas mesmo que utilizem máscaras e ainda num raio superior a 2m de contatos, significando que no período de pandemia deve-se evitar salas e ambientes fechados sem ventilação, pois os protocolos já conhecidos como a utilização de máscaras e o distanciamento social não são eficazes nestas situações.

Essas novas evidências sobre o comportamento do novo coronavirus colocam o mundo em alerta no que tange a assuntos sobre regimentos e as regras atuais  de proteção e combate à covid-19. No caso de frequência de pessoas em  escolas, universidades e em academias de ginástica, em que podem existir salas ou ambientes fechados e sem ventilação, além da abertura destes locais terem que  respeitar os critérios de flexibilização para funcionamento que levem em consideração a queda no número de contágios e no controle da pandemia na cidade ou país em questão, devem ser revistos também as características arquitetônicas destas instituições,  a fim de se manter a segurança de seus frequentadores em relação ao contágio da covid-19.

Essas novas e preocupantes informações com relação ao comportamento do novo coronavírus, e que vem sendo aos poucos descobertas e reveladas publicamente, colocam todos os professores de educação física dentro de um novo contexto profissional, dentro de um processo contínuo de reavaliação processual e metodológica, tendo que repensar incessantemente a realização ou a não realização das suas práticas em determinados ambientes e com determinados conteúdos, haja visto que vivemos um momento de flexibilização total de todas as atividades sem, no entanto, um embasamento técnico-científico de segurança para abertura e funcionamento principalmente de escolas e de academias de ginástica, ficando as tomadas de decisões embasadas apenas em sugestões ou especulações de políticos ou de empresários, que em sua maioria, não possuem conhecimento ou compromisso com as questões de saúde pública, colocando os lucros acima das vidas humanas.

Ao final de tudo, todas as decisões importantes acabam caindo nas mãos dos professores de escolas ou de academias, decisões sobre a vida e sobre a morte, em que pese a ausência total de políticas públicas governamentais de mitigação dos contágios da covid-19. Assim sendo, tais decisões que deveriam ser coletivas e pautadas na ciência e na saúde pública, terminam sendo decisões paliativas e que tangem apenas o âmbito do individual. Daí os motivos que explicam o Brasil ocupar de forma vergonhosa as primeiras posições de contágios e de óbitos pela covid-19 em todo o mundo.

 

sábado, 3 de outubro de 2020

De Volta para o Passado: da gripe espanhola à covid-19

  





(Escrito por: Renato Coelho)


De tempos em tempos o mundo é surpreendido por pandemias capazes de provocar  milhões de contágios e de mortes em todos os confins do planeta. Porém, o que temos observado ao longo da história é que a frequência no surgimento de pandemias tem sido cada vez menores, ou seja, em intervalos mais curtos de tempo surgem novas pandemias, e não somente isso, os vírus que originam as pandemias são cada vez mais agressivos, contagiosos e também mais letais. Os vírus são elementos essenciais para a manutenção da vida na Terra e as pandemias são na sua maioria fenômenos da própria natureza e que representam mecanismos de preservação das espécies. Entretanto, estes fenômenos da natureza podem também ser antecipados e potencializados pela ação humana intencional e destrutiva sobre o planeta.

Em 1918, houve a pandemia da chamada gripe espanhola, cujo gatilho inicial da explosão de casos foi provocado pelo grande movimento de soldados e de tropas durante a I Guerra Mundial. Já a atual pandemia do novo coronavirus tem como principal agente catalisador a grande mobilidade humana em aeroportos e rodovias de todo o mundo neste período denominado de globalização. Somam-se ainda para esse processo de crescimento viral, a grande destruição da natureza, já que desmatamentos, extinção de espécies e a captura de animais selvagens expõe a humanidade a uma infinitude de novos e desconhecidos  vírus.

O contexto do mundo em 1918 era totalmente diferente do atual, as relações político-econômicas eram muito distintas destas em que vivemos neste início do século XXI. Naquela época se expandia o modelo fordista de produção nas fábricas, dentro de um processo linear, repetitivo, especializado de produção capitalista e ainda caracterizado pela expansão do consumo e de novos mercados. A ciência também se desenvolveu muitíssimo neste complexo período de guerras entre as nações durante as primeiras décadas do século XX. O conhecimento científico alcançado e todo o  desenvolvimento tecnológico adquirido nestes últimos cem anos permitiram grandes conquistas e feitos para a humanidade em várias áreas como na medicina, física, química e engenharias. A ciência hoje atingiu níveis de complexidade e de especializações inimagináveis para as mais otimistas mentes das primeiras décadas do século passado. Entretanto, mesmo após passado um século na história, existem  muitas semelhanças entre a pandemia da gripe espanhola ocorrida em 1918 e a pandemia atual do novo coronavirus, mesmo considerando os cenários e os contextos tão distintos entre estes dois momentos importantes da história recente. Cem anos separam essas duas pandemias e muitas transformações e mudanças ocorreram na história, na economia, na sociedade e na cultura humana, porém, vários acontecimentos coincidentes e fatos irônicos ainda insistem em perdurar ou se  repetirem na história destas duas pandemias separadas pelo espaço de tempo de mais de um século. O extraordinário desenvolvimento da ciência atual não foi suficiente e nem capaz de derrubar crenças ou de abalar valores, preconceitos e paradigmas que remontam das primeiras décadas do século passado, mas que se vislumbram também no  atual momento da pandemia da covid-19. Isso demonstra na verdade que todos os conhecimentos e saberes produzidos pela complexa, moderna e fascinante ciência deste século XX,  não esteja tão facilmente acessível à maior parte da população mundial quanto parece, exceto na forma de mercadorias tecnológicas, colaborando assim para a alienação de indivíduos e que por sua vez favorece a uma maior manipulação, controle e opressão por parte dos Estados nacionais.

Existem várias teorias sobre o surgimento da gripe espanhola, fatos históricos importantes apontam que o vírus tenha surgido pela primeira vez nos EUA em 1918, no Fort Riley, que era uma instalação militar no estado do Kansas e que, logo após  a deflagração da I Guerra Mundial e o contínuo deslocamento das tropas americanas  e de soldados pela Europa, provocaram a partir daí vários surtos de casos em diferentes partes do mundo, convergindo para o surgimento da pandemia de 1918 (SILVA, 2000).

O nome de gripe “espanhola” surge porque a Espanha por não participar da I Guerra Mundial, tinha total liberdade por parte da imprensa para a divulgação sobre os relatos e  acontecimentos sobre a I  Guerra Mundial, incluindo as estatísticas e mortes na pandemia pelo mundo, daí o nome de “gripe espanhola” , pois a pandemia passou a ser conhecida em todo o mundo graças ao trabalho de divulgação realizado pela imprensa espanhola. Na maioria dos países que estavam envolvidos na guerra, era proibido a publicação sobre assuntos ligados à gripe espanhola, numa tentativa clara de esconder da população os números de infectados e de mortos naquela pandemia. Os próprios governos proibiam ou mesmo manipulavam os dados sobre a pandemia da gripe espanhola em seus países, a fim de não permitir que a propagação da doença afetasse direta ou indiretamente  a popularidade destes governantes ou os rumos da guerra.

Naquele período não se sabia qual era o agente que provocava a gripe espanhola, não havia se quer uma visualização dos vírus, pois o microscópio eletrônico foi inventado somente duas décadas depois, em 1940. E o verdadeiro vírus causador da gripe espanhola só foi descoberto recentemente, e hoje é conhecido como H1N1 o vírus que devastou o mundo a partir de 1918. Mas a medicina daquele início de século XX era ainda pouco desenvolvida para a compreensão da dinâmica de uma pandemia. Os médicos não sabiam ao certo os mecanismos exatos de transmissão da gripe espanhola e nem mesmo dominavam medicamentos eficientes para tratamento dos doentes, ainda não havia sido descoberto os antibióticos. E o que era pior, a maioria da população mundial não tinha acesso à saúde, medicamentos ou ao atendimento médico hospitalar de qualidade. Bilhões de trabalhadores em todo o mundo vendiam as suas forças, tempo, energias e toda a saúde para a produção de capital, e acabavam sendo tratados  apenas como objetos e mão de obra barata, que poderia ser descartável e substituída a qualquer momento que se quisesse. Naquele período, assim como hoje na pandemia da covid-19, a maior parte das mortes se deve não às formas agressivas e desconhecidas de agir do vírus Sars-Cov-2, mas sim à total desassistência médico-hospitalar dos trabalhadores no mundo capitalista, ficando sempre o trabalhador entregue à própria sorte sem assistência de saúde de qualidade, sem respiradores e sem UTI´s, seja um trabalhador do norte da Itália, da França, dos EUA ou um trabalhador da cidade de Manaus no Brasil. O vírus Sars-Cov-2 foi identificado e todo o seu código genético decifrado em apenas alguns meses após a descoberta do primeiro surto em Wuhan na China. Vacinas estão sendo fabricadas e testadas em tempo recorde, porém, a velocidade de propagação do vírus Sars-Cov-2, que é a mesma velocidade de propagação de mercadorias e de pessoas na sociedade capitalista, tem ceifado milhões de vidas também em tempo recorde, numa sociedade onde tempo é dinheiro, e onde a vida humana não vale mais do que o lucro do capital. Quanto menos valor tem a vida humana, mais fácil é para o vírus abreviar e aniquilar essas vidas.

Provavelmente o grande fluxo de soldados que retornaram para os seus países de origem, após o final da I Guerra Mundial, tenham de fato potencializado as transmissões no mundo e assim dado início à pandemia da gripe espanhola de 1918. Atualmente se sabe também que os principais locais propagadores do novo coronavirus foram inicialmente os aeroportos de todo o mundo e em seguida as rodovias dos países. O vírus se espalhou pelo mundo primeiramente viajando através dos fluxos de aviões pelo mundo e em seguida o vírus passou a viajar pelas estradas e rodovias mais movimentadas dos países capitalistas, e em virtude disso, primeiramente foram atingidas pela pandemia primeiramente os grandes centros urbanos e capitais com aeroportos de grande movimentação, e em seguida as cidades e regiões periféricas do interior através de suas malhas viárias.

A gripe espanhola também recebeu vários nomes diferentes, dependendo do país que era atingido pela pandemia. Na Espanha ela era chamada de “gripe da Rússia”. Em alguns países europeus era chamada de “gripe chinesa”. No Brasil foi denominada de “gripe espanhola”. Hoje na pandemia do novo coronavirus, houveram tentativas de ideologização ao tentar vincular o vírus à China, denominando-o pejorativamente e de forma preconceituosa de “vírus Chinês”, numa clara tentativa política em querer desvincular o vírus e a pandemia do seu verdadeiro causador: o sistema de produção capitalista.

Segundo estudos atuais a gripe espanhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas e cerca de 600 milhões de pessoas foram infectadas em todo o mundo. A pandemia da gripe espanhola que teve início em 1918, perdurou por cerca de três (3) anos, finalizando a propagação e os contágios somente em 1921, mas acabou se transformando numa endemia, já que o vírus H1N1 existe ainda hoje.

No Brasil os números de mortes pela gripe espanhola foram subnotificados, e os números oficiais da época apontam um total de 35 mil mortes, mas estudos apontam que o número total tenha sido muito superior ao divulgado pelo governo. No país a gripe espanhola foi denominada por muitas autoridades políticas e por gestores como sendo apenas uma "gripezinha". Na época existiam várias recomendações para o tratamento que iam desde a famosa quinina, remédio extraído do caule de uma árvore, e que ainda hoje  é o principal elemento ativo do medicamento farmacêutico denominado Cloroquina, recomendado para o tratamento de pacientes em estado grave da covid-19, mas que não possui nenhuma evidência científica verdadeiramente comprovada, também foi muito recomendado o uso de cachaça com mel e limão (aqui se dá o surgimento no Brasil da mais famosa bebida brasileira, a “caipirinha”). Porém, através de experiências práticas e mesmo não tendo conhecimento sobre a ação dos vírus, se sabia na época da eficácia do distanciamento e do isolamento social para o controle e mitigação dos contágios da doença, assim como também da utilização de máscaras em locais públicos.

Assim vemos que a ação da pandemia de gripe espanhola no mundo foi devastadora ao provocar um número exagerado de mortos em todo o mundo (estima-se um total de 100 milhões de mortos nas três ondas da pandemia de gripe espanhola entre 1918 e 1921), e também a atual pandemia da covid-19 também tem contabilizado números assustadores de mortos e de contágios. Em outubro de 2020 já foram registrados mais de 1 milhão de mortos em apenas 6 meses desde o início dos contágios na China e cerca de 35 milhões de contaminados em todo o planeta segundo dados divulgados pela Universidade de Jonhs Hopkins. Em que pese a utilização político-ideológica da pandemia em ambos os momentos analisados, também a postura negacionista em relação à ciência, em questões ligadas à realidade das transmissões e dos mecanismos virais na gripe espanhola e na covid-19, fatores esses que contribuíram e que contribuem  sobremaneira para o aumento do número de óbitos e também para a prorrogação no tempo de não controle da pandemia, ou seja, para a manutenção do descontrole da pandemia, como assistimos atualmente na maioria dos países do mundo, inclusive no Brasil.

Destacamos ainda que passados cerca de 100 anos entre ambas epidemias analisadas, muita coisa ainda não mudou. As posturas negacionistas, as limitações da ciência, a falta de assistência social aos trabalhadores em tempos de pandemia, a falta de hospitais e de atendimento à saúde dos trabalhadores, demonstram que numa sociedade de classes baseada no modelo de produção capitalista, a vida humana não possui valor ou importância a não ser para produção do próprio capital. Assistimos o pleno funcionamento das atividades econômicas em pleno crescimento exponencial de contágios pelo vírus Sars-Cov-2, pois ao trabalhador pobre não lhe é dado  nenhuma assistência social de modo a garanti-lhe o isolamento social pleno e eficaz para evitar a sua contaminação. O que se percebe é prática de políticas escancaradas de exposição do trabalhador ao vírus nos locais de trabalho e nos transportes e locais públicos, cujo resultado final é a prática de ações de cunho genocidas contra a maioria de trabalhadores pobres e precarizados em todos os países do mundo capitalista.


Bibliografia

ALVES, G. W. Uma comparação entre a pandemia de Gripe Espanhola e a Pandemia de Coronavirus. UFRGS. Porto Alegre, 2020. Visualizado em 02/10/2020 em: <www.ufrgs.br>

SILVA, D. N. Gripe Espanhola. História do Mundo. 2002. Visualizado em 02/10/2010 em: <www.historiadomundo.com.br>


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Falso Normal: os esportes na pandemia

         Nadadores brasileiros treinam em Portugal para primeiro torneio durante a pandemia


(Escrito por Renato Coelho)

Sempre governos de diferentes países e em diversas épocas utilizaram os esportes como instrumento ideológico e de manipulação da população. E nestes tempos tenebrosos de pandemia não tem sido diferente. As velhas e demagógicas políticas de controle estão sendo constantemente utilizadas por governos, instituições e também pela grande mídia no sentido de forçar as pessoas a acreditarem que mesmo em um contexto de pandemia, com as curvas ascendentes de mortes e de contágios pelo novo coronavirus no Brasil, que a vida pode simplesmente seguir nos antigos padrões da normalidade social, com viagens, passeios em shoppings centers, finais de semana na praia, matinês no cinema, barzinhos com os amigos, e ainda que à noite podemos em casa torcer pelo time do coração nos campeonatos nacionais transmitidos pela TV. Esse bombardeio constante de propaganda da falsa normalidade atinge a todos e colabora com a necropolítica do Estado brasileiro em transformar a curva exponencial da pandemia no Brasil na mais alta e longa do mundo, sob um platô com uma média móvel de 900 a 1000 mortes diárias. Os números e a matemática ratificam que a vida não segue nada de normal.

O esporte a partir do século XX se transforma em espetáculo midiático e em megaevento de entretenimento de bilhões de espectadores em todo o mundo. O esporte mercadoria se transforma em produto de consumo e é ofertado não mais como exercício físico, promoção de bem estar ou prática de lazer, mas é transformado  tão somente em objeto de contemplação e de fethiche. O sujeito que antes praticava o esporte e também o próprio esporte se transformam em objetos reificados pelo capital. O outrora ativo praticante e desportista do dia a dia  ou aquele torcedor apaixonado pelo seu time e frequentador dos estádios desaparecem no mundo do esporte espetáculo moderno e passam a dar lugar ao consumidor passivo do entretenimento esportes, transformado num mero sujeito inerte e que apenas contempla virtualmente o esporte espetáculo globalizado, que se transformou apenas em uma imagem a ser vendida e consumida. Nessa metamorfose para se enquadrar no processo de fetichização capitalista, o esporte não apenas se transforma em mais uma mercadoria, mas também perde seus significados, seus símbolos, regras e tradições. Nesse processo de mercadorização e de aniquilamento dos sentidos dos esportes, ocorre o empobrecimento e a perda dos seus elementos constitutivos e essenciais que o ligam a estética, a arte, ao popular e à história humana.

Mas o esporte não é hoje uma mercadoria qualquer, mas sim uma mercadoria singular e que movimenta uma cifra de bilhões de dólares no mundo. E além de produzir uma escala astronômica de lucros aos seus patrocinadores, os esportes possuem também um capital político e ideológico incomparáveis. Um exemplo marcante dos esportes como instrumento ideológico foi demonstrado durante o período da chamada Guerra Fria, quando da polarização do mundo entre a antiga União Soviética (ex-URSS) e os EUA, que dividiu o planeta entre países capitalistas  apoiados e liderados pelos EUA e os países do bloco comunista, ligado à antiga União Soviética. Durante este período as olímpiadas se transformaram em palco de disputas hegemônicas entre atletas do mundo capitalista versus atletas do mundo comunista. Nestas disputas, no entanto, o “fair play” nunca existiu, pois eram constantes e comuns os escândalos com doping envolvendo atletas de ambos os lados e que utilizavam esteróides anabolizantes e outros fármacos para alcançarem o pódio e as cobiçadas medalhas olímpicas.

Nos países da América Latina não foi diferente o uso dos esportes por governos e regimes ditatoriais, sempre houveram ações estatais que transformaram os esportes em bandeira de propaganda de representantes políticos ou de partidos. Na Argentina de Perón ao Brasil de Vargas, sempre se soube do grande poder, do fascínio, do êxtase e da admiração provocados pelos esportes, em especial do futebol, sobre a maior parte da população latino americana.

Durante o período das ditaduras militares na América do Sul, houveram casos emblemáticos e históricos onde o Estado se utilizou do esporte para promoção e propaganda de seus ideais e valores autoritários e repressivos, sob o falso manto do triunfalismo, da eficiência, do mérito e da sobrepujança, que são as características principais do esporte. E mais ainda, aqueles que conseguiam alcançar o mérito de serem os mais rápidos, mais velozes e que iam mais alto ou mais longe nos esportes, eram então convocados a se transformarem  em "garotos propaganda" da máquina  de publicidade  oficial do Estado.

A ditadura militar comandada por Jorge Videla na Argentina utilizou a Copa do Mundo de 1978 como propaganda do regime ditatorial para o mundo, tentando esconder as mazelas sociais do país, a pobreza e a violência estatal contra a os opositores ao regime. A Argentina que era sede da Copa do Mundo FIFA de Futebol em 1978 aumenta a violência e a repressão aos opositores no país durante o período da Copa. Enquanto a bola rolava nos gramados argentinos, milhares de pessoas passavam fome nos subúrbios das grandes cidades devido à miséria no país ou eram presas, torturadas e mortas pela polícia argentina.  Mas a propaganda de Videla tentava passar ao mundo a visão de uma outra Argentina, bem diferente daquela que se via nas ruas de Buenos Aires ou nos porões da polícia por todo o país. A propaganda estatal era a Argentina  como sendo o país do futebol  e do triunfo da seleção de Passarela, campeã do mundo em 1978. Mas, para se chegar à final da copa e ao título, o governo Argentino promoveu várias intervenções junto à Fifa e também na escancarada manipulação de jogos que beneficiaram o time anfitrião. Um jogo bastante emblemático foi entre Argentina e Peru durante as semi-finais, onde a seleção Argentina necessitava vencer a equipe adversária peruana com um placar de 4 gols de diferença para avançar à próxima fase, e assim também eliminar a seleção do Brasil daquela Copa. Com visita do general Videla ao vestiário da seleção peruana antes e após o jogo contra a Argentina, o placar final de 6 X 0 a favor da Argentina, fez a mesma avançar à final e disputar o título contra a Holanda.

No Chile, da mesma forma o ditador Augusto Pinochet, passa a promover intervenções e apoiar o Colo Colo, o time mais  famoso e popular da época e que formava a base da seleção chilena. Com o objetivo também de tentar desviar a atenção da população chilena e do mundo das barbáries, atrocidades e genocídios promovidos pela ditadura chilena aos seus opositores, o governo do ditador  Pinochet se utiliza do futebol como instrumento de controle e para mascarar a realidade. O Estádio Nacional do Chile em Santiago se tornou na época em um dos maiores símbolos da cruel ditadura chilena. Este famoso e importante estádio de futebol serviu de local de prisão e tortura para milhares de simpatizantes e apoiadores do governo deposto de Salvador Allende. Milhares de chilenos foram assassinados pela ditadura de Pinochet  dentro do Estádio Nacional do Chile. Um jogo que não aconteceu, mas que entrou para a história do futebol mundial foi nas eliminatórias para a copa do mundo de 1974 na Alemanha, onde a seleção chilena deveria enfrentar a seleção da antiga União Soviética no próprio Estádio Nacional em Santiago, mas o time russo se recusou a entrar em campo em protesto contra a ditadura de Pinochet e então a seleção do Chile entra no estádio sem o time adversário e vence o jogo por W.O, se classificando com o Estádio lotado com mais de 20 mil torcedores, mas que não assistiram a jogo nenhum.

No Brasil podemos citar também vários momentos sobre a utilização dos eventos  esportivos como instrumento ideológico e de manipulação, que vão desde  os governos de Getúlio Vargas, passando pelos militares pós 1964 e indo até os governos atuais.

Um dos episódios mais emblemáticos e marcantes da história do futebol no Brasil, e sobre a  ideologização do maior esporte nacional, ocorreu em 1970 na disputa da Copa do Mundo do México, onde a seleção comandada por Pelé & Cia, considerada a maior seleção de futebol de todos os tempos, se transformou na maior e mais poderosa bandeira de propaganda política da ditadura militar brasileira. Enquanto milhares de brasileiros, que se opunham à ditadura, eram torturados e mortos nos porões das delegacias policiais, o governo exaltava e patrocinava a chamada seleção canarinho que se consagrou tricampeã no México em 1970. A propaganda estatal sobre a seleção de Pelé não somente tentava passar uma boa imagem do Brasil no exterior, assim como também conseguia desviar o foco da população brasileira das questões importantes e ligadas à fome, à miséria , às injustiças sociais e sobretudo com relação à violência e repressão institucionalizada do regime contra os próprios brasileiros. O futebol também ajudou a vender mais tarde a propaganda do “milagre brasileiro” referente ao crescimento artificial da economia e promoveu dentro e fora do país a falsa imagem criada pelos militares do regime caracterizado pelo slogan “Brasil Potência” e “Brasil, País do futuro”.

Nos governos do PT, de Lula e Dilma, (2002-2016) mais uma vez se gastou muita energia e volumosas quantias em dinheiro para transformar o país na sede dos dois  maiores megaeventos  esportivos do planeta, a Copa do Mundo Fifa 2014 e Olimpíadas Rio 2016. O grande êxtase e o entusiasmo em sediar os megaeventos mais importantes do esporte moderno, contribuíram também para desviar o foco e a atenção da população brasileira da sua realidade, camuflando os problemas sociais e servindo de capital politico para o governo. Porém, os gastos astronômicos com a construção das chamadas Arenas de futebol, que ultrapassaram os 30 bilhões de reais (somente o estádio Mané Garrincha em Brasília custou cerca de 1,8 bilhão, e foi considerado na época o estádio mais caro do planeta). Os gastos com as Olímpiadas do Rio em 2016 ultrapassaram os gastos com a copa do mundo de 2014, chegando a cifra de 40 bilhões de reais. Os altos gastos com os megaeventos, as constantes denúncias de corrupções envolvendo os megaeventos esportivos e em contrapartida  a falta de investimentos em infra-estruturas ligadas à saúde, educação, saneamento e geração de empregos, e entre outros fatores importantes ,ajudaram a derrubar a popularidade do governo liderado pelo partido dos trabalhadores, culminando com o impeachment da presidenta Dilma Roussef em 2016.

Hoje, durante a pandemia do novo coronavirus e o governo de Jair Bolsonaro, também podemos observar a velha estratégia de se utilizar o esporte como propaganda na criação de uma falsa normalidade, com as mesmas estratégias e mecanismos adotados por governos anteriores, desde Vargas, passando pelos governos da ditadura militar pós 1964 e pelos governos do PT a partir da década de 2000. Os novos tempos e as velhas políticas em ação.

A partir de agosto de 2020, ainda quando se observava grande aumento nas curvas de contágios e de mortes pelo novo coronavirus em todo o país, houve o reinício do campeonato brasileiro de futebol e também dos campeonatos estaduais, resultado da pressão dos grandes times de futebol e pela própria CBF, e estes por sua vez reproduziam os discursos e as pressões do próprio presidente da República Jair Bolsonaro a favor da reabertura precoce da economia e da volta à "normalidade". Mesmo sem público nos estádios, foram criados vários protocolos sanitários para evitar o contágio entre atletas e pela comissão técnica. Mas o que assistimos foram vários episódios de surtos da covid-19 entre vários times do Brasil, inclusive do Goiás E.C e também do Atlético Goianiense, ambos times pertencentes à capital goiana. E no último dia 22 de setembro o time com a maior torcida do Brasil, o famoso Flamengo, testou 27 pessoas contaminadas, entre atletas, comissão técnica e cartolas, em viagem à cidade de Guayaquil no Equador pela disputa da copa Libertadores da América. O time que mais pressionou as autoridades para o reinício dos jogos durante a pandemia, tem praticamente quase todo o time e o próprio técnico contaminados pelo vírus Sars-Cov-2, provando que o reinício do futebol foi uma decisão precoce e insensata, e que não existe protocolo seguro quando a fase de transmissão do vírus é acelerada e ascendente.

Como se não bastasse, existe hoje no Brasil uma forte pressão de clubes sobre a CBF no intuito de liberar a participação de torcedores nos estádios durante a pandemia. Esse movimento também é encabeçado pelo time do Flamengo, cuja diretoria apoia o presidente da República, exigindo a abertura dos portões e das bilheterias aos torcedores. O prefeito do Rio de Janeiro, de olho nas eleições municipais de novembro próximo cedeu à pressão e aprovou a reabertura do Maracanã aos torcedores. Mas com a revolta de outros dirigentes de clubes importantes que não concordam com a reabertura apenas do Maracanã, a prefeitura carioca e o Flamengo voltaram atrás, aos menos por enquanto.

O que está de fato por detrás da volta do futebol e também das torcidas  nos estádios em pleno aumento de casos na pandemia? Hoje o país contabiliza cerca de 140 mil mortos pela covid-19 e várias cidades, como Goiânia, experimentam atualmente o pico de casos e de mortes na pandemia. Essa chamada necropolítica que promove o genocídio de brasileiros em todos os estados da federação, representa a tentativa desesperada e pragmática dos governos do país em criar uma falsa normalidade (alguns denominam de “novo normal”), onde o esporte e principalmente o futebol pode ser capaz de criar no imaginário das pessoas a falsa sensação de que a vida voltou a ser como antes, que podemos sair de casa e trabalhar como se a pandemia já estivesse terminado.  Mas é o contrário, a pandemia está em sua fase mais letal e veloz, ceifando milhares de vidas a cada instante. Uma tentativa desesperada em querer recuperar as perdas da economia pela pandemia em um país onde o governo usa o discurso negacionista e se isenta na criação de políticas públicas de mitigação dos contágios, faz então multiplicarem as tentativas e as propagandas de um falso normal, onde as pessoas possam voltar logo a consumir e se divertirem mesmo com um vírus desconhecido, letal e sem controle nas ruas. E o esporte se torna mais uma vez este instrumento de criação da normalidade impossível, tal qual nas ditaduras da América Latina ou como os já citados megaeventos dos governos do PT no Brasil.

A grande verdade, todos já sabem, para se controlar uma pandemia em um país pobre como o Brasil requer grandes investimentos que garantam a manutenção financeira das famílias de todos os trabalhadores e dos mais pobres e vulneráveis, também a criação de políticas públicas coordenadas na área da saúde capazes de promover a testagem em massa, o rastreamento em massa, o isolamento em massa e o tratamento de todos os contaminados do país, sejam os casos mais graves ou assintomáticos. Porém, nenhuma destas ações estão sendo colocadas em práticas no Brasil, daí a escolha pelos governantes pelo caminho mais fácil em colocar o trabalhador dentro dos estádios ou em frente da TV para assistir o seu time do coração em plena pandemia. Neste atalho que estamos trilhando e que se utiliza dos esportes como anestésico para uma população em pânico e à beira de uma revolta por causa dos prejuízos e do aumento da miséria provocado pela pandemia poderá levar o país ao abismo de uma pandemia que deverá durar anos e levar a economia aos frangalhos e a saúde pública ao colapso. Essa é a velha estratégia dos governos e do Estado para se criar o falso normal, porém o desemprego, a fome e a morte não são falsas, mas são muito reais.